O passado não pode ser jogado fora como um ticket de cinema
Escrito por adv on 19 de fevereiro de 2007 – 19:04 -As pessoas acham que passado deve ser jogado fora. Se assim fosse, deveriam amarrar 20 kg nos pés e mergulhar em alto mar. O passado não se joga como jogamos o ticket usado do cinema. Se você é vivo é porque teve um passado. Se você vai dirigir é porque aprendeu no passado, se vai aprender a dirigir é porque desenvolveu habilidades motoras suficientes para segurar no volante, claro, no passado… A vida gira em torno do passado, tudo vem e se transforma em passado, esse texto será passado.
Um dos métodos da psicanálise de Freud reside no passado (digo de Freud porque não dou a mínima para Jung, Adler, Otto, etc). “Atiçar” o inconsciente em busca de significados de palavras, sonhos, fantasias, delírios, ações… trazê-los em tona e ajudar o paciente a entender a si mesmo.
O passado marca como compreendemos o mundo e reagimos aos estímulos. Isso não quer dizer que o passado faz de você imagem e semelhança de seus progenitores, pode ser que tenhamos muitas semelhanças ou muitas diferenças. Enfim, no passado residem marcas e traços, memórias conscientes e inconscientes, lembranças que variam de acordo com a intensidade que vivenciamos os fatos.
Senhores dêem uma piscadela ao mundo, é o suficiente para ver que toda existência humana esta atada a conjuntos morais, éticos, filosóficos, biológicos… Toda vida humana é regida por elementos que estão submetidos a relações, relações estas descritíveis pela linguagem. Toda vida humana é regida pelo passado. Um passado que deixa de ser consciência para obedecer a uma linguagem descritível.
A linguagem é meramente a marcação de cada coisa com um som, em Genealogia da Moral, Nit nos diz que são os senhores que dão os nomes, é expressão de poder dos senhores, eles dizem “isso é isto” e apropriam se das coisas.
Às vezes temos que guardar determinadas coisas conosco, coisas que tememos lembrar até para nós mesmos. Não encontramos ou não foram inventados sons para descrevê-las. São coisas que fizemos (ou deixamos de fazer) e nos culpamos para o resto da vida. Às vezes em intimidade tentamos dizer, compartilhar, diminuir o peso, mas tememos afastar o que queremos aproximar. O mesmo se dá aos sentimentos. A ânsia de descrevê-los, na intenção de compartilhar tantos significados que nos trazem alegrias ou tristezas, culminam no embaraço. Um simples olhar pode nos trazer uma alegria que almejamos descrevê-la, mas como dizer, e quem vai acreditar? Alegria que deveria permanecer em inércia. - Mas o medo de afastar o que queremos aproximar emudece cada sílaba.
As pessoas não estão acostumadas a ver o que não pertence à física. É complicado revelar mesmo em intimidade. É complicado querer descrever os sentimentos quando para eles simplesmente não há sons descritíveis. - Rubem Alves em um de seus tantos belos textos dizia que uma mulher decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, desse modo ela não via a beleza, só via o lixo. Pode ser que façamos alguém sorrir poucas vezes. Mas algumas pessoas simplesmente esnobam, porque o que fica não é um humano que pode cometer erros tentando conseguir alguns sorrisos, fica somente a imagem formada na retina.
Passado e subjetividade, eis o meu abismo da tragédia. Pensamento trágico em oposição ao pensamento racional, crítica à linguagem, eis a proposta de Zaratustra. O super-homem a ser atingido, um novo modo de percepção, um novo modo de pensar, uma nova subjetividade, uma nova forma de vida.
Uma forma de vida que não abandona o passado, “passado-tragédia”, não partindo dos segredos e das verdades escondidas, mas procurando inventar-se a cada dia. A vida para qual vivo é como uma partida de xadrez, o rei, a rainha e os peões quando tudo acabado, irão tudo para um mesmo lugar. Xeque-mate é apenas um som descritível, não há nada a perder.
Leia também:
- Vida fábula, vida tragédia - parte II
- Comprovado: Religião é coisa de burro
- Brainstorming
- Como se dar bem na vida
- Franz Kafka sobre livros















fevereiro 20th, 2007 at 8:10
Muiyto bom o texto, tb acho q o passado não pode ser jogado fora, apesar dele atrapalhar muito as vezes, mas acho q todo mundo é assim, tem que conciliar com o passado. bom demais seu texto…
fevereiro 20th, 2007 at 16:07
esse texto me me fez pensar, nem lembrava mais que eu pensava heheheue
fevereiro 21st, 2007 at 2:49
oi, achei esse blog por acaso no google, nãosou de comentar, mas gostei do conteúdo, parabéns
:))))
fevereiro 21st, 2007 at 15:05
texto rulez :))
fevereiro 23rd, 2007 at 15:49
até que tem coisa boa aqui, tirando as invejas do triiiiiii mundial hhaahahahhahaeh
dezembro 20th, 2007 at 9:08
esse texto realmente mecheu comigo, pois esses textos me monstraram coisas que eu achava que nem existia mais em mim, mais o fato é que se todos nos procurarem bem sempre encontraremos uma resposta !
dezembro 20th, 2007 at 10:02
Olá Juliana, com certeza, só revirar um pouco que todo mundo tem umas coisas “escabrosas” escondidas, feliz os que conseguem lidar “naturalmente” com elas