A humanidade ainda está traumatizada pela sexualidade da criança
Escrito por adv on 4 de abril de 2007 – 6:21 -
Há genios* humanos que atribuimos uma confiança quase divina, talvez pelo fato de encontrarmos um conforto quando nos deparamos com pensamentos ou representações de vida que se assemelham pelo menos em parte, com as nossas, somos assim. Nos sentimos acolhido quando encontramos concordância.
Gênios adornados em túmulos, a qual sentimos companhia em dialogar silenciosamente o que não conseguimos com os vivos, e creio que a recíproca seria verdadeira. Nit se orgulhava quando ficava sabendo que algum raro leitor se interessava por alguns de seus escritos. Teve uma morte solitária e triste, dizia que sua filosofia seria para homens póstumos. Estava certo, a maioria dos gênios são como a Fênix.
São apedrejados com críticas na época das próprias descobertas, costumam ser eternizados postumamente. Alguns mesmo que conquistam reconhecimento continuam a receber críticas e mais críticas. Em dado momento histórico um gênio disse que a criança tem sexualidade. Dizia mais, o menino tem desejo pela mãe, e a menina desejo pelo pai - desejo sexual - e há de frisar que sexual aqui não é simplesmente o ato sexual, mas todas as sensações de prazer que um ser humano pode sentir, do saciar a fome, do cheiro da amada até o clímax que nos dá o céu por instantes.
O menino em determinada idade vê na figura do pai um ideal em que ele gostaria de se transformar, e na mãe um desejo enquanto objeto sexual. Figura materna que a nutre em todos os sentidos. O pai sendo um obstáculo a fantasia do menino, passa a se apresentar sob duas imagens diferentes: amado como um ideal, odiado como um rival. No inverso (na menina) o pai é visto sobre três formas diferentes, além de amado como ideal e odiado como rival, é visto também como objeto sexual desejável. Eis senhores a primeira grande doença sentida por nós seres humanos: o ciúme.
Desse enlace fantasioso chamado Complexo de Édipo**, guerra entre amor e ódio, há de haver uma dissolução com sucesso ou não. O indíviduo deve fazer a passagem da ilusão confortante da vida para as restrições da cultura. Sair do conforto ilusório para lutar na arena da vida. Tal como o anjo Gabriel foi tirado dos céus e colocado no inferno, segundo a “mitologia bíblica”.
O indivíduo que não consegue resolver essa fantasia de forma harmônica está condenado a ser um neurótico persistente***. Uma desordem psíquica que pode viver trancafiada na escuridão do inconsciente por anos e anos, mas que está sujeita a entrar no baile sem ser convidada. Um trauma que multiplica incessantemente, adquirindo formas sutis através de conexões que são manifestadas através de um comportamento sintomático que se legitima disfarçadamente. Um sujeito que interiormente carrega uma batalha entre o amor e o ódio, gladiadores que não vencem nem cessam a luta, mas causam danos.
A criança tem sexualidade - afirmou -. Um trauma que a humanidade parece não ter superado até hoje. E encontra em seus críticos a pusilanimidade do positivismo e as regras do empirismo. Ninguém investigou tão bem o sofrimento humano. Ninguém descreveu tão bem, superando os próprios fantasmas, a nossa condição conflitante. Pode ser que este homem não apresentou a cura, pois a cura para o incurável é a fantasia. “Nascemos com um programa inviável que é atender aos nossos instintos, mas o mundo não o permite.” Frustração desde o início, primeiro a natureza não cede e depois a sociedade nos impõe novas restrições. A dor originada do corpo e combatida pela química, a originada do desejo insatisfeito e a decorrente das nossas relações com os outros, a mais dolorida.
Temos três saídas: desistir do desejo, substituir o desejo ou fugir. A filosofia encontra a desistência dos desejos; as ciências pode nos trazer um prazer substituto, assim como a criatividade para as artes; e a fuga da realidade é objetivo da loucura e da religião, esta última um delírio de massas, e ainda temos as mágicas da química, do pó ao vapor. Todos nós desistimos de desejos, substituimos ou simplesmente fugimos. Não tem escolha certa.
O amor surge como o insuperável, nada o supera como forma de realização dos nossos desejos. Encontramos em Eros o prazer absoluto. Na companhia de um parceiro encontramos a eficiência para superar todas as frustrações, a superação de todos os instintos que gritam em caos entre os portões trancados da cultura, até mesmo o neurótico encontra a sua cura. Os narcísicos podem superar o sofrimento através da auto-realização, mas até Nit um dia sentiu os afagos momentâneos das lágrimas acariciando o rosto.
Não importa qual seja a forma, todas elas estão sujeitas ao risco da dor. O amor que antes era prazer absoluto em vida, pode vir a ser desprazer em morte; a criatividade e a ciência dependem do dinheiro e do talento; as drogas cobram seu preço na degradação física e mental; a religião escraviza e condena os instintos criado pelo próprio deus monoteísta.
Felicidade, diz o gênio, nada mais é do que a realização imediata de um impulso instintivo. Felicidade é o que deseja os anjos e os demônios. Felicidade que vem em teor mínimo, como 1g que pode até render 4 vezes, mas não deixa de ser instantâneo.
Senhores, coloquemos um beato frente a delicadeza de um corpo feminino, com curvas dos remoinhos e a suavidade das brisas, ostentado por delicados pés e iluminado pelo fogo erótico dos olhos, ele poderá até dizer que aquilo é a materialização de uma blasfêmia, mas ele sente o sangue correr pelo corpo implorando por saciação, não importa com qual intensidade, ele sabe e sente. Eis os críticos de Freud, eles sentem os próprios demônios e fantasmas batendo nos portões do reino do inconsciente, sentem as punhaladas, mas censuram a própria existência.
Sugestões de leitura:
O futuro de uma ilusão
O mal-estar na civilização
Totem e Tabu
Psicologia das Massas
Inibições, Sintomas e Angústias
O princípio do prazer
O homem dos ratos - um caso de neurose obsessiva
A interpretação dos sonhos (esse ainda não li, é um daqueles livros gigantes que colocamos na lista de “livros para ler antes de morrer” :D)
** O mais correto seria Complexo de Édipo para o sexo masculino e de Electra para o feminino.
* Na imagem, jovem defendendo-se de Eros; pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Fonte: Wikipédia
***Há de se destacar que a neurose obssessiva não é uma desordem caracterizada apenas por um desfecho mal resolvido pela criança, pode aparecer em idade adulta, basta um trauma psíquico.
Leia também:
- Vamos falar de amor? - parte 3
- Masturbação: verdades e mentiras
- Aumento de pênis - cirurgia ou terapia?
- Sexualidade e estética: um século assombrado pelo espelho
- Vamos falar de amor? - parte 1















abril 5th, 2007 at 18:33
não conheço Freud, a única coisa que sei é que é considerad o pai da psicologia se não estou errado, mas muito bom o seu modode escrever, parabéns
abril 6th, 2007 at 15:15
Olá, vc é formado em psicologia ou está cursando? Estou no terceiro ano de psico, não curto o Freud, como vc colocou no texto, talvez eu mesma precise superar esse ‘trauma”, mas parabéns, muito bom o texto, adorei a comparação que você fez no final.
Bjs
abril 11th, 2007 at 0:08
Olá, estava procurando por críticas contra Freud e acabei encontrando este texto que é justamente o contrário, na verdade tenho uma apresentavação de faculdade para fazer sobre o tema “complexo de édpio”, se me der permissão gostaria de usar seu final pois acho que foi uma comparação muito bem figurada, agradeceria, obrigado. Parabéns pelo blog
bjs
abril 13th, 2007 at 13:47
coloca lá, em transparencia com um título bem grandão “by http://www.logdemsn.com” haeeaheaee
abril 16th, 2007 at 22:41
vixi, papo cabeça não é comigo, mas é interessante saber isso, criança tem sexualidade, sente prazer pela mãe, putz, até eu fiquei traumatizado. Escreva mais sobre o amor, quando vc diz “O amor surge como o insuperável….” fiquei curioso
agosto 27th, 2007 at 21:29
Boa noite, de psicanálise e Freud não entendo nada, mas adorei o texto, principalmente pela riqueza em figuras de linguagem. Parabéns mesmo!!
agosto 27th, 2007 at 21:35
Olá, boa noite, não entendo do assunto, mas adorei pela riqueza em figuras de linguagens, muito bom mesmo!!
setembro 4th, 2007 at 12:42
Olá, também gosto de psicanálise, achei o texto muitobom, tb concordo que a psicanálise infelizmente, na era da “liberação sexual” se assim podemos comparar à época de Freud, ainda sofre preconceitos, o que ao meu ver, é prova concreta dos mecanismos de defesas que Freud tanto dizia…
setembro 6th, 2007 at 12:40
Olá, antes de mais nada gostei muito do seu texto, embora seja visível que é um texto em defesa da psicanálise e não se vê imparcialidade. Gostaria se possível, que você disse os nomes que Freud deu para quando você diz “Temos três saídas: desistir do desejo, substituir o desejo ou fugir.” isso tem conceitos certo?
abraços
setembro 6th, 2007 at 14:22
Re.: Angélica
obrigado =)
setembro 6th, 2007 at 15:33
Re.: Prof. Valério
Valério, tudo isso se refere a mecanismos de defesa do ego; são vários, para citar os principais: sublimação, projeção, deslocamento, formação reativa, recalque, etc.; desistir, substituir ou fugir não tem necessariamente conexão com somente uma ou outra forma de defesa, podem coexistir juntos; o que sabe é que todos esses mecanismos são estratégias inconscientes do Ego visando o equilíbrio psíquico; para saber mais leia o livro “O Ego e o Id” flw