Por um movimento universitário sem hipocrisia

Escrito por adv on 15 de junho de 2007 – 14:13 -



Quem vê as inúmeras e variadas instituições destinadas ao ensino e ao aprendizado, além da grande multidão de alunos e mestres, poderá acreditar que para o gênero humano a compreensão e a verdade são de extrema relevância. Todavia também nesse caso as aparências enganam. Os mestres ensinam para ganhar dinheiro e não visam à sabedoria, mas aparecer e receber o crédito de seus semelhantes; e os alunos não estudam para adquirir conhecimento e compreensão, mas para poderem falar e atribuir-se prestígio.

Schopenhauer

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Na minha infância ninguém perguntava “o que você quer ser quando crescer?”. Muito se espera que uma criança diga que quer ser advogado, médico, psicólogo, professor, economista, jornalista…, algo que daria orgulho aos pais.

Mas naquela comunidade, doutores eram inimigos, “almofadinha”, “ladrão que usa papel e caneta”, “ladrão legalizado”. Quem dizia que queria ter alguma profissão dessas com etiquetas chiques logo esquecia, senão alguém ajudava a esquecer: “ta sonhando vacilão?! acorda doidão!”. Tudo bem, eu nunca conjecturei um futuro. Quando comecei descobrir o mundo, o que norteava meu pensamento era a necessidade de ter dinheiro, não me importava o como conseguir.

Como eu disse, profissão é para pais que orgulham de seus filhos, o que não era o meu caso. Mas os acontecimentos na minha vida conjecturaram um futuro. Por algum motivo eu quis ser doutor, não para dar orgulho aos meus pais, mas para dar orgulho a mim mesmo. Não me importo se vou trabalhar na área ou não, eu quero dizer ao “doutor” fantasioso do meu inconsciente que eu não sou “vacilão”. Mais alguns anos e serei psicólogo, e ironicamente meu trabalho, atualmente, envolve atendimentos a doutores. Descobri que muitos são pessoas legais, apenas não pensam além das aparências.

Irei formar e provavelmente buscarei por especialização, mas nunca vou querer ser doutor, não acho que pessoas sem um nível acadêmico superior são inferiores. Para todos os efeitos eu costumo dizer que quando o jogo de xadrez acaba, o rei e o peão irão para um mesmo lugar. Mas os mais estúpidos se acham no direito de achar superior a outro da mesma espécie. E mais estúpido que o doutor da minha fantasia inconsciente, é uma parcela não muito pequena, de estudantes universitários.

O Brasil é tão carente em educação que os jovens quando conseguem entrar nas universidades públicas passam por um ritual. Mais que um ritual festivo, um ritual de transfiguração para estupidez. Experimentaram durante muitos anos a moralidade e a censura da educação e dos bons modos, que se sentem como andorinhas em migração. Essa parcela de universitários que me refiro são aqueles que dão show de personalidades, mas a única cabível é a falta de uma. São como as boas moças da época de Freud, que se viam curadas das histerias quando se casavam.

Inicialmente é um bicho bobo, se acha diferente do restante das pessoas. Universitário de universidade pública só diz o curso que está cursando depois de dizer onde estuda. O que move a euforia de um universitário e um religioso é a carência. Carência de um povo que se acostumou a sofrer com os dentes cerrados, diz Eduardo Galeano à América Latina, tão peculiar a nós brasileiros.

Assusta-me o fato de que muitos estudantes que se vêem em um patamar acima do restante da população, simplesmente pelo fato de terem conseguido vencer um vestibular de universidade pública, discursarem em prol de um humanismo para todos, quando na prática o que move seus ideais é a busca por títulos e números.

Há certa arrogância nesse meio, em grau que varia de acordo com o tecnicismo empregado em seus cursos. Pelo exposto acima e o que ainda será, digo que por trás do discurso humanitário desses universitários a que me refiro, o que se vê é uma cumplicidade ideológica pela manutenção de classes.

Universidade pública no Brasil não é sinônimo de pobreza, muito pelo contrário. A grande maioria dos alunos são de classes médias e altas, se é que é possível dizer isso no Brasil. Alunos que freqüentaram colégios particulares ou como no meu caso, freqüentaram colégios públicos até o terceiro colegial e passaram por uma reformulação mental em algum cursinho privado. Aqueles que passaram direto do ensino público, tiveram acesso e apropriação de conteúdos que o dinheiro por outras vias pode oferecer. Raríssimas exceções são aqueles que mesmo com poucas oportunidades obtiveram êxito, seja através de muito esforço ou boas capacidades cognitivas.

Em pouco mais de três anos que estou na faculdade, o que presenciei foram muitas paralisações feitas em prol do aumento do salário dos professores, que não é baixo, mas não permite que os doutores façam viagens em transatlânticos todo mês. Muitos alunos engajam nesse movimento com um discurso de que o aumento do salário dos docentes irá possibilitar uma melhor qualidade de ensino, discurso da sedução, afinal qualquer “cigarro” é vanglória a universitário.

Quando há uma pauta além do aumento de salários, como por exemplo, melhorias tecnológicas, administrativas ou físicas, envolvendo interesses de ambas as partes, tão logo são atendidos os interesses dos professores e o movimento é desfeito. Professores não fazem greve para possibilitar melhores condições aos alunos.

No momento a questão é a iminência da perda da autonomia das Universidades, pois segundo a Constituição que não é de práxis de brasileiro saber, as Universidades gozam de total autonomia administrativa. A briga é com o Serra que, para atender aos interesses de outras classes dominantes, quer eliminar esse privilégio. Por outro lado, os manifestantes argumentam, principalmente, que a perda da autonomia irá possibilitar um desmantelamento da qualidade de ensino, uma vez que o governo legitima a sua incompetência – o que é a base da nossa política - favorecendo a privatização do ensino.

Não estou do lado dos manifestantes e muito menos dos governantes. O que me indigna é a hipocrisia do discurso humanitário dos manifestantes. Os alunos de hoje serão os doutores de amanhã. Doutores que, salvo uma pouca parcela, estaram poucos interessados com o caos social. Doutores excelentes, desde que sejam pagos os honorários.

A ciência nunca foi humanitária, com exceção dos discursos poéticos a prática é sempre para atender aos interesses do Capitalismo. Advogar aos favelados, psicanalisar aos bêbados, ensinar o belo discurso sócio-histórico aos oprimidos certamente que não são interesses de ninguém. Quando muito, participam em ONG´s – outra farsa humanitária – para satisfação da nobreza do superego.

Não pretendo com isso, dizer que os senhores deveriam prestar serviços de graça a toda população, mas sim, que o belo discurso humanitário que vemos nas Universidades, se perdem entre os cânones acadêmicos. Não vejo algum doutor interessado em conscientização crítica da população, talvez interessados em comprovarem suas teorias aplicando em populações pobres a fim de obterem números nos murais científicos.

Rubem Alves é um dos poucos acadêmicos que eu admiro muito, doutor que não quer ser “doutor”, e reside ai uma das principais causas das críticas que costuma receber dos senhores acadêmicos. Diz ele: “(…)As cerimônias, mesuras e seriedades da vida acadêmica continuam a me assombrar.” Concordo com ele quando diz que os educadores são raros, o que se vê são professores, pois “com o advento do utilitarismo (…) tudo se alterou. A pessoa passou a ser definida pela sua produção: a identidade é engolida pela função.”

Nesse sentido, a função da grande parcela acadêmica é de cumplicidade ideológica, na medida em que criticam os interesses dominantes em detrimento dos próprios interesses, também, dominantes.

Não interessa ser a favor ou não do neoliberalismo, mesmo contra a nossa vontade, todos nós somos cúmplices. Como diz o poeta que muitos dos senhores costumam chamar de favelado e ignorante: “às vezes eu acho que todo preto como eu/ só quer um terreno no mato só seu/ sem luxo descalço nadar num riacho/ sem fome pegando as fruta no cacho,/ ai truta é o que eu acho e o que eu quero também/ mais em são Paulo Deus é uma nota de cem.” - A questão é até que ponto os interesses de vocês são realmente em favor da qualidade e do ensino para todos. A justificativa de que estão primando um ensino público e de qualidade para todos, mascara um ensino que sempre foi para aqueles que podem ter acesso.

Para finalizar, é triste quando estudantes engajados nesse movimento, e não só, usam imagens e bandeiras que se conhecessem um pouco mais não cometeria tamanha estupidez. Por favor, parem de querer ser revolucionários, existiram poucos e o estágio atual do Capitalismo não permite a existência de outros. Não maculem e não usem a tão sagrada imagem do Che Guevara em vão, à favor da hipocrisia usem a de Jesus Cristo. O Che não lutou por interesses particulares, lutou em prol de interesses comuns de povos oprimidos, roubados e excluídos de seus direitos, cidadãos que eram antes de tudo, latino-americanos. O próprio Che foi um universitário que abandonou a sua carreira de doutor para dar o sangue em favor de povos, não apenas de determinados grupos. Freud diz que é um ato de amor que encontramos nos momentos fundadores da humanidade, não a compreensão intelectual, é um ato de amor que movem os revolucionários. Os senhores não são movidos por um ato de amor.

E ao leitor que estiver sedento de ódio por mim - mais precisamente aqueles que bebem Coca-cola e Skol, mas se diz revolucionário -, me chamando de capitalista neoliberal, como o fazem com todos, eu vos digo, sou cúmplice do neo-liberalismo como vocês e todos brasileiros, mas eu não estou preocupado com o que sou e o que não sou, aliás, vocês universitários que deveriam se preocupar, uma vez que padecem, muitas vezes, de uma identidade própria, o que leva a experimentarem várias.

Isso antes de tudo é um blog pessoal, estou pouco interessado em divulgação e sensibilização. Eu opto pela solidão, pois concordo com Nit quando nos diz que “na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão devoram-no inúmeros”.

Não sou contra as manifestações, pelo contrário, torço por êxito, entretanto, o discurso deveria ser sem máscaras. Parem de dizer que o ideal maior é uma educação de qualidade e de graça para todos. À esses mascarados reside minha crítica, não estou do lado desses nem do Sistema, sou aquele chato que não participa da multidão. Aquele que aprecia o silêncio crítico e vai além da representação material. Aquele que odeia o Sistema, a “ordem e o progresso”, mas antes de tudo tem um aguçado espírito de ver as coisas a modo nietzschiano e schopenhaueriano.

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3 Comentários em “Por um movimento universitário sem hipocrisia”

  1. Roberto Lécio Diz:

    Não sei qual universidade em específico vc se refere, se for a USP, como diz meu professor, eles se acham “phDeuses”. Não faço parte desse meio, estou por fora dos discursos dos envolvidos, mas que as universidades públicas é feita de gente de classe média e alta, isso não há dúvidas. Sucesso brother! o blog tá manero

  2. Mirela Sâmara Diz:

    Já que vc citou o Rubem, ele faz uma crítica as autonomias das instituições na medida em que desprezam o ser humano antes de tudo não-ideológico. Diz ele:

    “…a educação, como tudo o mais, tem a ver com instituições, classes, grandes unidades estruturais que funcionam segundo regras que possuem o estatuto de leis, sendo portanto totalmente independentes dos sujeitos envolvidos. (…) Justo que nos preocupemos com professores e alunos. Mas não é aqui que se encontram as explicações, a ciência do real. Marca dominante de nosso discurso sócio-ideológico: a autonomia das instituições.”

  3. Mirela Sâmara Diz:

    Interessante seria se as pessoas fôssem autônomas, não as instituições. Mas acho válido os movimentos, embora concordo que são cúmplices ideológico no sentido em que você citou.

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