O amor dos bichos que não me torna humano

Escrito por adv on 19 de julho de 2007 – 16:34 -



Esse post é bem dolorido, pelo menos à mim, peço que não façam comentários descritivos sobre a dor desse conteúdo.

Há 3 dias atrás, por acaso, passando entre os canais da TV, vi cenas desagradáveis. Não, não foi de homens matando uns aos outros, antes fosse. Eram homens matando “bichinhos” :/

Um filho da puta da rede Record estava dizendo para não perder o programa de logo mais que iria contar tudo sobre carnes, se ela faz bem ou faz mal, e todo processo antes de chegar na mesa.

Passaram cenas de crueldade contra os animais. É triste, bem triste! Não irei relatar o que vi, pois qualquer tipo de pensamento referente a tal horror, sinto meu estômago contorcer e uma sensação de que meus vasos sanguíneos estão se dilacerando. Vou me encolhendo lentamente até começar a chorar. Foi sempre assim, será sempre assim. A psicanálise explica isso muito bem, mas não cabe nesse post discutir sobre, a chave está na compulsão à repetição pós-evento traumático, algo que acho que nem o próprio Freud entendeu bem o que escreveu (ver “Além do princípio do prazer”).

Não sei por que estou escrevendo este post. Inútil, afinal quem se preocupa com os animais? – Ainda corro o risco de ser acusado de profano, por falar em vida aos animais quando os humanos estão morrendo ou explodindo! Digo ainda mais: eu como carne (de peixe, frango e vaca), mais que isso, eu não como sem carne. Agora irão dizer que sou hipócrita.

Na verdade, não admito morte com sofrimento, mas admito morte sem sofrimento. Admito tiro na cabeça, choques mortais e paralisia geral dos neurotransmissores antes de um findar. Todos enquanto surpresas. A vida é assim, frágil, simples. Na pré-história fomos animais bem mais civilizados do que os civilizados de hoje que já não são animais. Somos uma espécie deplorável de bípedes onívoros. - Tais álibis de certa forma me isentam da culpa na hora de comer. Acredito que a carne que estou comendo teve uma “boa morte”. Acho que deve ser uma falsa ilusão em se tratando de Brasil, onde nem mesmo os humanos têm morte digna.

Quando vejo tais cenas me vêm pensamentos dilacerantes que me deixam mal por várias semanas, não saio de casa, não vou às aulas e trabalho com apatia. Fico mal escrevendo isso, jamais voltarei para corrigir esse post, jamais lerei na íntegra, estou apenas defecando mentalmente, querendo dizer algo que não sei dizer e que é bem provável que seja bem diferente desse conteúdo. Mas para todos os efeitos Freud já demonstrou a “cura pela fala” em vários relatos clínicos. Então esse post é útil para mim. Esse blog é pessoal!

Estranhamente todas as pessoas que amo muito eu comparo com um bichinho. Quero tratar como bichinho e quando perco também sofro como se perdesse um bichinho. Somente assim é que posso chorar e sofrer por um humano.

Difícil dizer por que amo tanto os bichos. Já tive coelhos, peixes, codornas, periquitos (daqueles verdes), hamsters e o meu atual poodle. Uma companhia insubstituível. Schopenhauer também tinha um poodle, via nele qualidades que os humanos jamais poderiam ter. Eu também, e acrescento que estar com animais é ter percepções que dificilmente teremos à companhia das pessoas. Nit ainda nos ensina - obviamente que ironizando os evolucionistas da época - que o chimpanzé é simpático demais para que nós descendêssemos dele.

Não é pelo simples ato de matar que eu tenho um sofrimento inexplicável pelos bichos. Epicuro é brilhante ao dizer que tememos a morte sem motivo, pois quando estamos vivos ela está ausente, e quando estivermos mortos ela também estará ausente. Não me importo se enquanto eu escrevo em algum lugar há bípedes morrendo.

Já os bichos amam a vida, os seus semelhantes e até mesmos os estranhos, para isso nem exigem que também sejam amados. Não reclamam da velhice e nem a temem, sabem que conseguir morrer pelo tempo é um privilégio e quando conseguem se apresentam mais serenos e sábios. Gordos ou magros demais, jamais estarão descontentes com a própria imagem. Os seus olhos compreendem uma incrível vontade de viver independentemente da situação. Deve ser por tudo isso que sofro pelos animais.

Nós humanos, do contrário, estamos sempre reclamando. A velhice nos assombra e morremos diante da iminência da morte. Fazemos outro semelhante sofrer. Negamos amor e afeto. Tememos a dor e o sofrimento. Estranhamos nosso próprio corpo e estamos sempre querendo modificá-lo. Temos a desprezível capacidade de não amar a vida e sermos estranhos uns aos outros. Nós é que devíamos freqüentar os matadouros e os animais ser os nossos carrascos.

Assim, esse post que se constitui mais como um desabafo incompreendido, já que os rumos da carnificina humana não é possível mudar, ou seria?. Deixo um pouco de paz com Schopenhauer que nos diz: “se um deus fez este mundo, eu é que não gostaria de ser este deus; a miséria aqui presente despedaçaria meu coração”.

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10 Comentários em “O amor dos bichos que não me torna humano”

  1. Luis Paulo Mansur Diz:

    Cara, põe no wikiquote: Na pré-história fomos animais bem mais civilizados do que os civilizados de hoje que já não são animais.

    hehehehehe, demais!

  2. Aline D´Avilla Diz:

    ainda volto pra ler esse post inteiro, parece fofo mas to caindo de sono, bjos e um ótimo fds :)

  3. Andrezza Diz:

    Olha achei esse blog por acaso no google, achei muito interessante e resolvi deixar um comentário, e olha que não sou disso, mas gostei desse post, acho que é algo que poucas gente devem escrever sobre “amor aos bichos” hehehee. Não acho que esse post é inútil não, eu tb amo os animais, e adorei a parte que você compara o “amor a vida” que eles tem em contraposição a nós que muitas vezes não agradecemos. É triste que nós humanos somos tão bárbaros, acho que é bem mesmo a idéia que vc disse de que os animais deveriam ser os nossos carrascos e tb estou com o colega ai em cima, realmente, a frase “na pré histoória fomos animais bem mais civilizados que os civlizados de hoje que já não sao animais” é brilhante, bjs e um ótimo fds ;)

  4. Baleiro Diz:

    De viado em sensível, todo mundo tem um pouco… né não adriel, seu bicha?

  5. adv Diz:

    teste (ajax comments)

  6. adv Diz:

    heheheh funcionando :]

  7. Veterinário não é médico e vice-versa Diz:

    [...] bem, eu sou mais chamar um veterinário de doutor (por esse motivo) do que um médico de doutor, embora nunca é repetitivo dizer que, “doutor” é somente [...]

  8. Alexandre L. Diz:

    É… Assumir que se é alguém que está chocado com o abuso que nós humanos imprimimos aos animais, leva a uma conclusão nítida de que o consumo de carne é a PRINCIPAL motivação para tal! Não adianta amar seu poodle e comer um grande bife no almoço! Morte sem sofrimento? Não sabemos do que estamos falando, mesmo! Fora os suicidas, não queremos morrer! Alguns deles também nem devem saber ao certo se querem morrer! Aliás, adianta amar seu poodle sim… Você ama uma parte e despreza outra!
    Vi que você gosta de filosofia: -Talvez seja hora de se perguntar porque continua a comer derivados animais!
    Responder que somos imorais e talvez exista algo em nossa “natureza” que nos torne assim, pode ser uma saída! Então, me diga porque você se sentiu tão incomodado com a matéria que descreveu inicialmente? Algo em nossa “natureza” parece apontar pra uma solidariedade maior ou uma inclusão (ainda que psicológica) numa categoria que vai além dessa porcaria que chamamos racionalidade!

    Abraços!

  9. adv Diz:

    cara, vc levantou uma questão muito interessante, algo que frequentemente tenho pensado sobre, … discutirei isso em um pro´ximo post ok =)

  10. Em defesa dos animais Diz:

    [...] leitor levantou uma questão em um dos meus posts onde falo do meu amor pelos bichos. Trata-se de uma contradição entre o meu amor pelos animais e a minha alimentação contendo [...]

Queremos saber suas idéias. Deixe um comentário =)




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