Uma tecnologia pictórica de comunicação

Escrito por adv on 9 de agosto de 2007 – 23:34 -



Os homens se orgulham de suas realizações (…) Contudo, parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das forças da natureza, (…) não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. (…) o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana (…) Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de nossa felicidade.
Sigmund Freud (O Mal-Estar na Civilização – 1930)

É inegável que muito mudou nos tempos de hoje em relação aos tempos primevos. Tornamos-nos uma espécie altamente evoluída ou uma catástrofe. Todo esse processo, graças à comunicação. E em especial a linguagem escrita, que levou milhares de anos para que a humanidade pudesse desenvolver. Milhares de anos que estão sendo exterminados pelo uso abusivo de códigos visuais.

Quando vamos ao banheiro, nos deparamos com plaquetas que figuram com uma cartola ou um boneco de calça para indicar que o uso se destina aos homens, as mulheres se deparam com bolsas ou um boneco de vestido – ao invés de simplesmente a identificação escrita “homens” e “mulheres”. Isso pode parecer um exemplo simples, mas a magnitude a que isso se distende é imensa.

Perdemos o costume de escrever e já não sabemos nos expressar emocionalmente nem afetivamente com espontaneidade. Substituímos o contato pessoal e as sensações que a letra escrita manualmente no papel nos desperta, pela sensação utópica de sociabilidade que a internet e a telefonia oferecem. Prolifera-se na rede, conceitos de compartilhar e interagir. Esse blog embora não tenha um conteúdo voltado para qualquer público, também incorpora conceitos da Web 2.0.

O Orkut talvez tenha revolucionado a internet. É um fenômeno, na medida em que possibilita a sensação de sociabilidade através de uma assepsia do contato físico e pessoal. E são muitos os outros exemplos. O que se esconde por trás disso tudo, obviamente que não é a responsabilidade social do Google nem do Orkut em promover a cidadania e o bom relacionamento social entre os seres humanos, mas sim, o tanto de lucro que determinada rede social irá gerar.

Estamos substituindo nossos comportamentos por símbolos. Um símbolo para cada emoção e até mesmo para ações e comportamentos. Tristezas, alegrias, amor, raiva, mal-estar, inveja, luxúria, carinho… uma lista imensa de símbolos que esterilizam as relações. O MSN sabe muito bem disso e trouxe formas mais “humanas” nos símbolos, agora ele impera absoluto no quesito comunicação instantânea, e mais além, traz a sensação utópica de que estamos convivendo socialmente. Quando nos conectamos abrimos logo o comunicador para nos sentirmos em companhia de muitas pessoas, e se não temos assunto, um emoticon pode nos representar sob a forma que queremos.

Por outro lado, na vida real nos faltam habilidades para abordar, interagir e compartilhar com pessoas desconhecidas e por que não, até mesmo as conhecidas. Estamos desaprendendo aquilo que possibilitou que nos uníssemos em sociedade.

Se na época de Freud as pessoas sofriam pela repressão sexual, hoje elas sofrem pela falta de companhia, pela falta de alguém que possam ouvi-las a contar os seus sonhos, seus desejos, suas fantasias. Mas quem se atreve a dizer tais coisas sem o medo da repreensão? Será que não irei ser taxado de ridículo por contar o sonho de abraçar aquela pessoa que amo tanto em uma sociedade que não permite o desenvolvimento de um lado afetivo além daquele produtivo? – Estamos imersos em multidão, mas o ser humano se sente vazio, a ausência diante da presença é muito mais ausente do que na ausência propriamente dita. Cabe aqui um ensinamento de Nietzsche, “na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão devoram-no inúmeros. Então escolhe.”

Se me questionarem por que então, nunca se viu tantos homens de mãos dadas com mulheres e de homens abraçados com homens e mulheres beijando mulheres, eu respondo que os Homens estão se especializando na arte da teatralização. Por quê?

A Revolução Industrial substituiu os açoites do chicote pelos açoites da responsabilidade civil e criminal. A Revolução Tecnológica veio a consolidar ainda mais o homem enquanto ser técnico, lógico e racional, programado para nascer, produzir, consumir e morrer.

A realidade está sendo substituída pelas imagens da televisão, do cinema e dos símbolos. As crianças talvez não mais introjetam suas relações afetivas a partir do relacionamento familiar, nem constroem suas noções de identidade pelo relacionamento em sociedade, mas sim, com os apresentadores e a sociedade apresentada pelas imagens e símbolos na televisão e nos variados meios de interação virtual. Será que chegará um dia em que o Complexo de Édipo se dará com a iminência do perigo de castração por parte do apresentador virtual de sexo oposto?

Freud nos diz que ao retratarmos nossos desejos como realizados, os sonhos decerto nos transportam para o futuro. Mas esse futuro, que o sonhador representa como presente, foi moldado por seu desejo indestrutível à imagem e semelhança do passado. Talvez hoje o futuro seja moldado pelos desejos refletidos pelas imagens e símbolos no cotidiano das telenovelas e da ficção. Decorre daí o “homem-teatral”. Àquele que procura companhia para que possa desempenhar o reflexo da vida e não a vida.

Talvez os humanos não andam de mãos dadas pelo simples prazer de compartilhar seus desejos, fantasias e sonhos. Pelo prazer inexplicável de um sorriso de amor e o prazer da troca de conversas e cartas escritas com suor e sangue, elementos que nos transportam a um mundo de sinestesias que os meios de comunicação e tecnologia são incapazes de promover. Mas sim, porque esperamos refletir um desejo simbólico.

Não só pela escrita, mas pela brutalidade com que estamos assassinando as formas de comunicação humana real, talvez um dia os humanos terão que carregar consigo um sistema digital de troca de emoticons para poderem se comunicar!

Talvez estejamos voltando aos tempos das cavernas. Não mais usamos as rochas para grafar imagens pictóricas, usamos a televisão e as “rochas virtuais”.

Postado em Filosofando, Psicanálise | 9 Comments »

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9 Responses to “Uma tecnologia pictórica de comunicação”

  1. 9
    Mônica Abranches Werneck Says:

    Viver, simplesmente viver, sem medo,entregando sua existência a quem você ama, aprendendo tudo o que puder acrescentar algo a mais, procurando sempre ajudar a quem você ama, acho que é o caminho. De tudo o que já vivi, e que não foi pouco, pois já tenho meio século e mais um ano de vida, o que mais me toca e conforta além de principalmente ter saúde, é poder dar meu amor a meus entes queridos e desejar para a humanidade este amor. Desejo a todo ser humano desse planeta que possa compartilhar sentimentos puros e únicos nessa existência. Gostaria de saber expressar-me sobre a felicidade de viver, apesar de tudo… Somos únicos e devemos aceitar essa vida como ela é, com o progresso e evolução naturais, inclusive com os meios de comunicação, sem os quais nossos cérebros estariam massacrados pela ansiedade. Obrigada.

  2. 8
    Você sabe de onde vem a idéia de tecnologia? | LOG de MSN Says:

    [...] A maioria das pessoas se alegra com a idéia de possuir o que há de mais atual na tecnologia. Notebooks, iPods, iPhones, Playstations, MP3 Players, câmeras digitais… uma infinidade de objetos que até pouco tempo não existiam, se multiplicam em proporção assustadora. A tecnologia, principalmente a eletrônica, invade nosso cotidiano nos saturando com informações, serviços e entretenimento. O chamado “mundo digital” nos passa o virtual confundido com o real, lidamos mais com signos do que com significados. [...]

  3. 7
    Sobre a fragilidade dos vínculos humanos (Bauman) Says:

    [...] meu post “Uma tecnologia pictória de comunicação” chamei a atenção para a dissolução dos nossos vínculos face a modernidade, sobretudo as [...]

  4. 6
    O Grande Ditador - Charles Chaplin Says:

    [...] parágrafo, pois tráz em tona algo muito parecido com o que tentei chamar atenção no post “Uma tecnologia pictórica da comunicação“. O primeiro parágrafo pode levar a indignações, certamente há os que irão dizer que [...]

  5. 5
    adv Says:

    Acho que interpretação de uma outra forma… vamos lá… pensando por esse lado, que a sociedade, esta impôs que os sentimentos e outras expressões psicológicas que demonstram afetividade ou emoções, fossem reprimidas, uma questão muito bem abordada por Freud em “O Mal-Estar na Civilização”, e o MSN surge enquanto meio/possibilidade das pessoas ainda demonstrarem, em certo grau, seus sentimentos, é o lado positivo. Em sentido de reprimido, pela sociedade, pela civilização… e não resguardados.

    Quanto ao fato de parecer que o crivo exalta as formas de falar e escrever poeticamente, com apreço às normas cultas, isso não foi dito aqui, pelo contrário, a própria citação “Perdemos o costume de escrever e já não sabemos nos expressar emocionalmente nem afetivamente com espontaneidade.” deixa claro; espontÂneo pode significar de origem de sentimento natural, sem constrangimentos, livre, sincero… e principalmente nesse contexto, aponta para uma fala simples e natural, sem se preocupar com as normas cultas, com as regras e outras deduções, pelo contrário, simplesmente dizer o que se pensa e sente, seja através de um gesto, de uma palavra ou de uma frase escrita num papel velho e amassado de pão. Isso foi possível quando ainda não havia ainda impregnado, o capitalismo brutal como o é hj, que prioriza o conhecimento produtivo a qualquer custo, um capitalismo que não quer saber o que você pensa, o que você sente ou que raios de vida vc vive, ah não ser, saber em números o quanto vc produz. Acho que não é necessário dizer que por trás de todo autor há um amontoado de trocas de cartas escritas com amigos, que expressao sentimentos e outros anseios. Desnecessário dizer que quando não haviam inventado meios de comunicação “instantânea” as pessoas escreviam cartas e mais cartas e aguardavam ansiosamente que elas chegassem em seu destino; mães se comunicavam com filhos a longas distância através de cartas; namorados afogavam em lágrimas de saudades qdo recebiam uma carta que viajou meses e meses até chegar; assim o foi nas correspondências trocadas de Nit com sua irmã, com Lou, com Rée; assim o foi com Schopenhauer e sua mãe; assim o foi com Freud e seu amigo Fliess; só para citar alguns autores.

    A questão é, olha como os meios de comunicação estão esterilizando cada vez mais nossas comunicações, mesmo q indiretamente da nossa parte, se antes da invenção da internet ou do telefone tínhamos que ir pessoalmente falar com um amigo do outro lado da rua, o que necessariamente envolvia além da mensagem, trocas de relações emocionais, hj vc pega a merda do telefone ou liga o msn e fala.

    Agora o último ponto, acho que você vestiu a carapuça capitalista para dizer que habilidades de interação e relacionamento humano só não foram desenvolvidas por falta de necessidade. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Religião, Filosofia, a poesia, as Artes em geral… desde que o mundo existe, embora cada uma com suas peculiaridades e divergências, podemos dizer que elas sempre foram, e sempre estarão, desempenhando o papel de criar (seja através de teorias, imagens, músicas, seja qual for a forma da expressão) formas de explicar as formas de relacionamento humano, como o homem interagi entre si, em socieade, como se interagi com o mundo e o conhecimento… com as formas de relacionamento humano, questionando, criando teorias.

    Se há algum ser humano que não tenha problemas de relacionamento, seja em grau menor ou maior, que não tem problemas de se expressar, que diz aquilo que pensa sem jamais se preocupar com quem está falando e em qual local está… todo pensamento, todo conhecimento produzido até hj, pode se dizer que foi em vão, pois os homens são todos, ou a grande maioria deles, providos de habilidades para se interagir com o outro, basta inclinar um pouco o olhar a toda existÊncia humana e veremos que ainda não sabemos nos relacionar nem com nós mesmos, muito menos com o meio ambiente e os outros seres vivos.

    Veja bem, a questão que se coloca não é simplesmente o fato de saber abordar o vizinho para dizer algo, para abordar um estranho em determinadas ocasiões com algum interesse, ir a alguma festa e abordar alguém com interesses afetivos, … enfim, comunicar é muito mais além do que saber conversar pessoalmente, seja com um amigo ou um estranho.

    Comunicar e interagir vão muito mais além do que a simples análise de um ser humano, verificar se ele tem algum grau de timidez ou é “problemático”… um indivíduo “problemático”, mais do que ser ou não cheio de aspectos considerados negativos, é uma DENÚNCIA do caos que vivem os Humanos. Denúncia sempre conclamada pela Filosofia, principalmente a de Schopenhauer.

  6. 4
    Baleiro Says:

    ADV escreveu :”Talvez os humanos não andam de mãos dadas pelo simples prazer de compartilhar seus desejos, fantasias e sonhos. Pelo prazer inexplicável de um sorriso de amor e o prazer da troca de conversas e cartas escritas com suor e sangue, elementos que nos transportam a um mundo de sinestesias que os meios de comunicação e tecnologia são incapazes de promover. Mas sim, porque esperamos refletir um desejo simbólico.”

    Cara, concordo com isso…embora há pessoas que sentem prazer e fazem isso por ele… disse também que “A Revolução Tecnológica veio a consolidar ainda mais o homem enquanto ser técnico, lógico e racional, programado para nascer, produzir, consumir e morrer”, concordo totalmente, porém, com ou sem msn já somos assim. O msn e outros meios em que as pessoas demonstram sentimentos através de símbolos e figuras, e essas não fazem isso pessoalmente só demonstram que os sentimentos ficaram resguardados. A sociedade impôs que não fossem valorizados, e aos poucos estão sendo mostrados, mesmo via internet. Do jeito que fala, parece que sempre demonstramos nossas emoções com escrita e frases bonitas – nem todos foram escritores – a maioria sempre demonstrou isso através de gestos. Olhe pra sua mãe, duvido que tenha lhe dito mais que te amava do que te dado abraços e beijos, ou feito biscoitos, ou seja lá a forma que ela desenvolveu de demonstrar o afeto.

    “Perdemos o costume de escrever e já não sabemos nos expressar emocionalmente nem afetivamente com espontaneidade.” – E quando que isso foi possível?

    “na vida real nos faltam habilidades para abordar, interagir e compartilhar com pessoas desconhecidas e por que não, até mesmo as conhecidas. Estamos desaprendendo aquilo que possibilitou que nos uníssemos em sociedade.”
    Essas habilidades só não foram desenvolvidas por falta de necessidade, se quiser, é só desenvolver. É mais preconceito da sua parte do que uma verdade absoluta. Se vc tem problemas em conversar pessoalmente com alguém e só fala certas coisas via msn… vc é problemático, e não que todos sejam.

  7. 3
    Rodrigo P. Says:

    Parei em ‘…e se não temos assunto, um emoticon pode nos representar sob a forma que queremos.’

    hehaeehahehaehehaeeh, depois leio o resto :)

  8. 2
    doc Says:

    Você escreve essa bíblia de 400 linhas e vem uma ameba e comenta da “FOTO”… AHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAH… Ta tudo fudido mesmo…

  9. 1
    Luana Salmen Says:

    EStou rindo até agora da foto das pessoas com cara de emoticons hhahahahahahhahahahahahahehahehahahhaheh

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