O que é meme, como e por quê surgiu
Escrito por adv on 25 de agosto de 2007 – 19:34 -
O Homem não precisa começar tudo do zero quando nasce. Cada geração não precisa redescobrir o fogo, fabricar ferramentas rústicas de pedras e assim por diante, o saber historicamente construído pela humanidade passa de gerações à gerações através da linguagem, seja em sua forma verbal ou simbólica.
A seleção natural também não começa do zero, lentamente irá condicionar características mais adaptadas nas espécies, seja fisiologicamente e até comportamentais. Por exemplo, os comportamentos de corte, de caça, de segurança, etc., são visivelmente muito semelhantes entre animais da mesma espécie. No Homem não é diferente, no entanto, não nos é tão visível quanto nas outras espécies porque a cultura concorre enquanto mascaramento dos muitos sinais que indicam nossas necessidades.
Para que o trabalho da natureza não comece do zero, ela conta com o trabalho dos genes, enquanto replicadores da seleção natural.
O conhecimento acumulado pela humanidade, evita que precisamos organizar grupos para caçar, morar em árvores e cavernas. Temos meios de produzir alimento para saciar a fome de todos e ainda sobrar (mas não somos solidários em dividir), construímos moradias que nos dão maior proteção e as ciências e a tecnologia, caminham em largos passos para diminuir tempo e barreiras físicas.
Nesse sentido a transmissão cultural é análoga à transmissão genética, mesmo que, embora seja basicamente conservadora, pode originar um tipo de evolução. E evolução aqui não significa melhores condições de vida, pois ainda não somos evoluídos no sentido de prever conseqüências.
Para dar conta de explicar o Homem moderno, imerso na Cultura, Darwin sozinho não é suficiente, mas deixou suas contribuições para muitas abordagens da Psicologia, principalmente a Psicanálise de Freud e as psicologias de base evolucionistas. Com os etólogos não foi diferente, tentando dar conta do Homem que vive em cultura, Richard Dawkins, um cientista evolucionista, apresentou em 1976 o termo “mimeme”.
Mas a idéia era dar conta de explicar as transmissões culturais analogamente à transmissão dos genes, daí o termo foi reduzido para um parecido com “gene”, o “meme”, que está relacionado à memória.
Nesse sentido, os genes se propagam de “corpo” em “corpo” através dos espermatozóides e os memes se propagam de “cérebro” em “cérebro” através de um processo de imitação de idéias. O meio de transmissão depende da influência humana em várias formas, a palavra escrita e falada, o exemplo pessoal, e muitas vezes com o auxílio de músicas, imagens e slogans.
Também análogo à seleção natural, alguns memes são mais sucedidos que outros. Tudo dependerá de 3 dimensões que devemos levar em conta: 1) longevidade; 2) fecundidade e 3) fidelidade de cópia.
Geralmente os memes que conseguem um sucesso brilhante em curto prazo tendem a ficar no esquecimento. Isso é muito comum com a moda. O fabricante usa de vários meios para “fecundar” sua marca, apresenta slogans acompanhados de músicas e modelos que visam sensibilizar o público para se identificar com a idéia de “sucesso”. Dependendo da apelação da publicidade à estultice do público, o produto pode atingir níveis de vendas altíssimos em curto prazo. Passado o verão, tão logo esse meme cairá no esquecimento.
Por outro lado, as idéias religiosas, por exemplo, levam séculos para serem construídas, mas também tendem a se propagar durante milhares de anos devido ao grande potencial dos seus registros escritos e capacidade em oferecer uma espécie de “prótese” a quaisquer dos males da existência humana - a “crença em uma vida após a morte” é um meme transmitido a milhares de anos.
Outro fator que pondera a longevidade de um meme é a fidelidade da cópia. Como regra geral, os memes não são de forma alguma replicados em sua forma idêntica. Eu sou adepto das idéias do Freud, isso não significa que eu as reproduzo exatamente como Freud disse, pelo contrário, eu acrescento, retiro e modifico de acordo com meu repertório de vida e necessidade. Também posso ler autores que escrevem sobre psicanálise freudiana, que também não transmitem as idéias de Freud de forma idêntica. Nunca é demais dizer que, neutralidade na transmissão das idéias é algo que caduca no meio jornalístico.
Diante do exposto, apresento as duas faces do meme, uma positiva e outra negativa, já convidando você a refletir sobre.
Por um lado, um meme pode literalmente parasitar vários cérebros, transformando-o, enquanto veículo para propagação de idéias perniciosas e sensacionalistas. O publicitário e o empresário podem usar você enquanto meio para consolidar e vender produtos visando o enriquecimento próprio, pouco se importando se o produto é bom ou ruim. O “blogueiro” pode usar um meme para conseguir “trackbacks” visando simplesmente aumentar a quantidade de visitantes que irão clicar nos anúncios de sua página, ou usar um meme para transmitir uma idéia que acha interessante e obter colher opiniões a respeito para fundamentar um pensamento.
A mídia é a principal forma de transmissão de um meme. Por exemplo, da mesma forma que um vírus parasita uma célula e pode se propagar pelo código genético, a rede Globo (e outras emissoras) parasita o cérebro de muitas pessoas propagando suas idéias que refletem as relações de dominação e alienação. Para isso, basta explorar e apelar à capacidade de imitação do cérebro, uma capacidade muito bem desenvolvida na espécie humana por menor que seja a intelectualidade do sujeito.
Por outro lado, enquanto os genes podem apagar qualquer vestígio de sua existência, o meme pode consolidar sua existência no pensamento da humanidade. Sócrates por exemplo, é praticamente certo que não exista ninguém que carregue um de seus genes, porém, seu meme “só sei que nada sei”, sobrevive há milênios.
Assim é com os costumes, os hábitos, os slogans e tantas outras idéias que atravessam séculos de gerações à gerações.
Leia também:
- Deus, um Delírio - Dawkins
- A vida é bela [álbum: Festival de Cannes 60 anos]
- in Pensamentos: Músicas de sucesso no Brasil
- Responda: O que será do seu blog quando você morrer?
- IURD, Universal do Reino de Deus, Edir Macedo - motim parte 2












agosto 25th, 2007 at 19:58
O que Meme, como e por qu surgiu…
uma construo cientfica do conceito, as origens e a necessidade do surgimento…
agosto 25th, 2007 at 20:01
cara conheci o blogo pelo meu agregador de links que uso, muito bom, eu não sabia que meme era um conceito que tinha subsídios científicos por trás, valeu mesmo !!
agosto 25th, 2007 at 21:51
Bela postagem!
E ainda,quando quiser, veja o Meme da Loira burra em
http://www.clubeletras.net/blog/100-categoria/o-meme-loira-burra/
Abs
Sérgio
agosto 26th, 2007 at 12:10
Nem imaginava que esse termo tinha bases evolucionistas, onde encontro mais assuntos evolucionistas mas discutidos a luz da modernidade, poderia indicar alguns;? Obrigado
agosto 26th, 2007 at 14:38
Olá, Alessandro!
Amigo… sou um tanto intuitivo com as temáticas. Elas surgem de minhas observações. Não há uma fonte específica para se abastecer.
No caso, como você se identifica com isso também, vem comigo. Vamos juntos trabalhando isso.
Veja essa minha última postagem. Nela, esta inserido todo um universo que se forma em torno dos blogs.
Vamos acompanhar isso.
abraços
Sérgio
agosto 26th, 2007 at 14:39
Esqueci…
A última postagem é essa abaixo
http://www.clubeletras.net/blog/hype/viral-madame-bela-na-playboy/
agosto 27th, 2007 at 15:33
Re: Alessandro Baluarte
vou citar meus preferidos, mas como disse o Sérgio logo acima, não há fonte específica para se abastecer, um autor leva o outro. Os próprios escritos do Darwin não deixa de ser atual, embora temos hj todo conhecimento genético que Darwin não tinha naquele tempo, entre os que gosto bastante, que discutem o legado de Darwin à luz da modernidade, tem próprio Dawkins citado neste post (O Gene Egoísta, O Relojoeiro Cego, Desvendando o Arco-Íris, O Rio que saia do Eden…) considerado polêmico pq seus escritos sempre fundamentam a inexistência de deus, e mais recente ainda, tem a Helen Fisher, uma etóloga que explica muito do comportamento humano à partir dos seus estudos com animais. O primeiro autor você deve encontrar ebooks no 4shared ok, tenta lá…
agosto 27th, 2007 at 21:22
Não só esse post, mas o blog de modo geral, tem umas postagens bem interessante, pelo menos para quem está cansada de ver blogs que nada mais são que mostruários de anúncios, ou será que um dia você colocaria anúncios aqui também? heheheh, espero que continue do jeito que está, parabéns
agosto 30th, 2007 at 22:29
Nada de propagandas aqui. Pode ficar tranqüila… =)
setembro 5th, 2008 at 14:53
Muito bom o texto.
Extremamente enriquecedor.
Valeu pelas preciosas informações.
Terei que passar aqui mais vezes para saber de mais coisas…
novembro 14th, 2008 at 9:13
Cara vaelu vou usar esse texto para minhas futuras aulas.
novembro 14th, 2008 at 9:14
Valeu brother muito enriquecedor esse texto.