Carta a um morto
Escrito por adv on 4 de setembro de 2007 – 16:50 -Ando meio vagabundo né! Tô numa gripe daquelas… sentindo a falta de alguns medicamentos e enfim, essa quarta acho que vem algumas “injeçõezinhas” que vão me dar uma grande ajuda =) - Mas enquanto isso, o que se segue abaixo é um texto que escrevi em uma das atividades da disciplina “Psicologia da Morte” no meu curso de Psicologia, aliás, disciplina hor-rí-vel.
A professora havia proposto que levássemos para próxima aula, objetos (fotografia, livro, etc) de alguma pessoa que morreu e gostávamos muito, além de um texto como se fosse uma carta a essa pessoa falecida. Bom, nossa opinião se divergiu um pouco…
Carta a um morto
Olá seu morto, estou indignado com teu silêncio!
Por que você nunca se manifesta diante dos vivos barulhentos e amedrontados na difícil competição pela vida?
Nunca deixamos você em paz, estamos sempre querendo descobrir como é sua “vida”. Estamos freqüentemente inventando fábulas sobre você. Tem a fábula que diz que você está presente em forma de espírito, uma coisa invisível. Tem a que diz que você voltou em forma de animal ou até mesmo outra pessoa, uma forma de reencarnação. Aquela que diz que você subiu no céu, está num paraíso voluptuoso, cercado de virgens, anjos e santos, num deleite eterno.
Há tantas outras diferentes versões, mas não irei te incomodar com todas elas. Creio que você já está farto e aborrecido com nossa covardia de encarar a sua condição de morto.
Apesar do nosso horror diante de ti, há pessoas que gostariam de estar na sua condição de repouso sublime. Aqui na vida os homens ainda continuam em guerra. Há homens que aguardam ansiosamente para fazer parte do seu mundo. Moribundos que vivem na miséria, com soluços, lágrimas e as sepulturas recém-cavadas diante da crueldade da vida. Há ainda os de cabelos brancos e idade trêmula que já não agüentam se sustentar diante da ignorância das pessoas que já as consideram exauridas dessa vida. Ainda não somos capazes de solucionar as tristezas que a vida nos impõe, mas criamos muitas formas distorcidas com ilusões confortantes.
Algumas pessoas dão o último suspiro em direção à morte antes mesmo de ver o rosto da mãe, outros estão cansados de ver o rosto da “vida-mãe”. Há tantas contradições entre os vivos.
Somos tão egoístas que sofremos quando vamos morrer e o mundo permanecerá na sua rotina. Não suportamos partir e deixar um ser amado. Há tantas perguntas que gostaríamos que você respondesse.
Vivemos num caos mascarado pela democracia. A política ainda continua um conjunto de processos tendentes à excitação e paixões populares. Liberdade despida de censura é somente cabível à filosofia. Nem a morte é livre de burocracias. Seu morto, você que estampa tanta lisura no rosto, me diga, gostaria de voltar a essa realidade?
A vida tem tantos segredos a nos revelar, infelizmente queremos saber mais sobre a morte. Todos querem ir para o céu, mas se perguntarem quem gostaria de ir nesse exato momento, o silêncio vai ser ensurdecedor. E você seu morto, viveu os prazeres dessa vida? Ou passou a vida toda temendo o inferno? São tantas as reles perguntas que gostaríamos de obter respostas de ti. Estás no céu ou no inferno? Consegue nos ver? Um dia você vai voltar? Como é estar morto?
Muitos mistérios a ciência nos responde e se propõe a buscar respostas a todos eles. Mas somos ainda muito inquietos diante da vida, nosso mundo ainda continua “assombrado pelos demônios”. Como nas primeiras civilizações, as soluções paliativas que se propõem resolver todos os mistérios a partir de invenções confortantes para nossa curiosidade, crescem em ritmo impetuoso.
Criamos muitas teorias místicas e até mesmo científicas sobre a sua “vida”. Muitas delas nada mais servem do que anestesias para tolerar as dificuldades do mundo externo. Levam em cena um início depois do fim. Tendemos a questionar como é o morrer, mas nunca morremos para saber. Seu morto, está aborrecido porque não somos honestos a dizer “não sei” quando nos perguntam o que vem depois da morte?
Peço-lhe desculpas por nossa petulância insistente em querer saber sobre sua condição de matéria orgânica em decomposição num ciclo natural. Ora, me desculpe se você ainda tem esperanças de ser espírito, alma, santo, anjo ou seja lá o quê!
Posso lhe dar um epitáfio novo como desculpas da minha ousadia em perturbar sua placidez. Torneado em bronze ou prata, pois aqui no mundo dos vivos o ouro está muito caro.
Prometo que não lhe incomodarei mais, mas prometa-me também, que você vai regar a terra seca que nos causa fome e miséria com a água que um dia irrigou seu corpo. Que vai servir seus nutrientes as plantas para que elas cresçam verdejantes e sirvam de alimento aos animais. E os restos que sobrarem de ti, distribua entre as bactérias e fungos que apesar de serem invisíveis aos nossos olhos, fazem silenciosamente de seus restos muitas novas vidas.
Leia também:
- Brainstorming
- Questões existenciais: pequeno diálogo
- Salve o planeta e se der tempo, os humanos! - O Homem está morto!
- Vida e morte - você já parou para pensar na sua despedida?
- O que é meme, como e por quê surgiu















setembro 5th, 2007 at 12:25
Até entendo a crítica a morte, mas esse final… sei lá, as coisas não podem ser assim, acho que vc nunca perdeu alguém importante, senão não teria feito esse final, valeu!
setembro 5th, 2007 at 23:48
credo cara, que frieza !!! mas belo texto
setembro 7th, 2007 at 23:05
~~ /
dezembro 22nd, 2007 at 14:12
[...] onde estivermos. Admitimos que vamos morrer, mas de uma forma que não iremos saber. Um dos meus textos escritos com a finalidade de apresentação na disciplina Psicologia da Morte, logo nos [...]
abril 2nd, 2008 at 15:23
demais!