Os heróis do capitalismo: José e o vestibular - parte 1/2

Escrito por adv on 20 de outubro de 2007 – 20:27 -



Prólogo:

A estória e o discurso de José são os mesmos de muitos brasileiros. Todos eles se sentem culpados pela própria condição de vida. Embora com estórias diferentes, são semelhantes em suas justificativas, se culpabilizam pelos próprios fracassos.

Todos eles sabem que há ricos e pobres. Sabem que sua pobreza mal garante as condições básicas de vida. Sabem também, que outros parecem viver no paraíso. Que seus patrões enriquecem cada dia mais, mesmo que suas próprias condições de vida continuem estagnadas, entretanto, alimentadas pela esperança do trabalho.

Não conseguem imaginar que os lucros dos seus patrões são frutos do trabalho dos empregados - além do trabalho do patrão. Não conseguem imaginar por que os seus salários permanecem os mesmos enquanto os dos patrões sempre aumentam.

Sabem que na comunidade todos saem ganhando quando formam mutirões para construções de casebres. Mas não cogitam por que os lucros da empresa onde trabalham não são divididos entre todos que participam.

Todas as aparentes contradições da vida concreta se justificam em seus pensamentos pela competência própria de cada um. Todos nascem iguais, mas morrem diferentes. A vida tão sonhada é meramente fruto do esforço e competência individual.

É direito do “outro” ter tudo aquilo porque ele trabalhou e conquistou. Mas e o direito do José? – O direito do José é não ter tudo aquilo porque não trabalhou ou não foi competente para isso.

Eis senhores o discurso que se prolifera através das relações de poder e dominação do Estado, das Instituições e dos processos globalizantes. São os culpados pela própria condição de miserabilidade e não vítimas, é assim que aprendemos o mundo como nos querem passar.

Quem se atreve a (re)pensar as utopias construídas pelos heróis do Capital: a individualidade, a igualdade e a liberdade?

José desde criança ouviu dos pais que todos têm direitos iguais e podem ser livres em suas escolhas. Seus pais, avós, tios, vizinhos e professores sempre diziam que tudo na vida se conquista com o suor do trabalho. Todas essas pessoas davam exemplos de como trabalharam arduamente em seus tempos joviais antes de conquistar uma posição que, embora fosse ainda precária, ostentavam orgulhosamente sem perder a esperança de um dia ter a vida tão sonhada que conhecem pela TV.

O pai de José, seu Ivan, é agricultor e trabalha no corte da cana em uma região do interior de São Paulo. A mãe, dona Amélia, é costureira, mas no momento está desempregada, faz alguns “bicos” quando surge. José é o primeiro filho dos quatro que dividem uma casa com um quarto, uma cozinha e um banheiro.

José começou trabalhar com 9 anos de idade, vendia balas nos semáforos para ajudar a renda dos pais. Quando dava freqüentava no período da tarde a 3ª série do ensino fundamental em uma escola pública da região. O pouco dinheiro da família mal dava para comprar mantimentos, José estudava com materiais que ele conseguia pedindo em escritórios (rascunhos e pedaços de lápis).

Alimentado pelo discurso de que basta estudar para conseguir um trabalho e ter a vida que quiser José prosseguia seu sonho de um dia ser médico. A mãe depositava todas as esperanças de uma vida melhor nos estudos de José. Dizia: “estude meu filho, quem sabe um dia você seja médico igual o doutor ali do postinho, aquele sim, um homem de sucesso, deve ganhar muito dinheiro, carro bom, casa boa, filhos tudo bem tratado.”

A turma da escola chamava José de “Zé preguiça”. Diziam que ele sempre andava mal vestido, não tomava banhos e ia à aula apenas para comer a merenda. Os professores diziam que os pais de José não davam carinho nem apoio para os filhos estudarem, diziam que eram pais que não se importavam com o futuro do filho. Embora fosse o sonho da mãe.

Todas essas circunstâncias eram tidas como causas da incompetência do José por estar cursando pelo terceiro ano consecutivo a 3ª série, quando finalmente, os professores passaram José para a 4ª série. José sabia ler “comendo” algumas sílabas e escrever com vários erros, pouco sabia o que significava, mas sabia que tinha que estudar para conseguir uma boa vida.

Hoje, José com 21 anos está terminando o 3º ano do ensino médio e trabalha como empacotador de terça à domingo em uma rede de supermercados, ganha um salário por mês e pensa em prestar vestibular em uma Universidade pública.

A rede de supermercados onde o José trabalha está faturando alto. Ampliou as lojas e não para de crescer. O dono da rede que antes trabalhava em período integral como gerente de sua própria loja, agora é só empresário, paga outros funcionários para trabalharem e sua função é receber os altos lucros no fim do mês.

Terminado mais um mês, todos os funcionários, independente do tanto de lucro que o supermercado faturou, recebiam o mesmo salário pela função exercida. Pensar em dividir os lucros, mesmo que a maior parte ficasse com o dono, seria uma heresia. Ninguém ali, nem o gerente cogitava essa idéia. Mas todos alimentavam a esperança de que trabalhando iriam conseguir conquistar uma posição melhor.

Terminou o ano e José conseguiu inscrição gratuita para o vestibular de uma universidade pública de São Paulo. No dia da prova José mal conseguiu entender como deveria ser marcadas as respostas na folha “cheia de códigos” que ele recebeu, precisou chamar a atendente que educadamente lhe explicou.

José folheou o caderno e foi pulando as questões que considerava difíceis para depois. Quando se deu conta, quase todas as questões tinham sido deixadas para trás sem respostas. Em um total de 80 questões José tinha assinalado apenas 6. José não entendia porque sentia tantas dificuldades naquele momento. As poucas fórmulas que ainda se lembrava da época de escola anotou-as em um rascunho, não adiantou, não sabia onde usá-las.

Depois de “chutar” todas as questões José voltou para casa se lamentando. Tinha deixado escapar sua chance de conquistar tudo aquilo que sempre sonhou: uma casa melhor para a família, um carro popular, um plano de saúde para cuidar bem dos irmãos e dos pais, a profissão de médico que escolhera e todos os seus sonhos viraram frustração.

No restante da tarde de domingo José viu a seleção brasileira jogar. Por instantes achou que todos seus problemas tinham sumido com a estupenda goleada do time canarinho contra a seleção do Togo, um país que José não sabia que existia.

Pela madrugada de domingo, atentamente, José escutava os sermões do pastor num programa televisivo. Ficava feliz ao ver que muitas pessoas com problemas piores que o dele tinham sido abençoadas por Deus. Pessoas que “dormiram” e “acordaram” empresários de sucesso, fruto, segundo o pastor, da fé e da assiduidade dessas pessoas em comparecer nas tais sessões do descarrego e do pagamento do dízimo. Embora sem saber o que é fé José sabia que precisava dela.

Na segunda-feira lá estava José empacotando mantimentos, muitos deles nunca tivera oportunidade de experimentar. Pela noite José foi à igreja mais próxima e ficou feliz ao ouvir que Deus tinha um plano, naquela noite, a uma das pessoas que ali estavam. Ao término José ainda contribuiu para a obra de Deus com a quantia equivalente a 5 dias de seu trabalho. Embora não era obrigatório, José fazia questão de contribuir porque o pastor lhe disse que Deus não quer muito dinheiro, queria o possível de dar naquele momento e que mesmo sendo um valor irrisório Deus se alegraria e daria muito mais.

José voltou feliz para casa. Estava esperançoso. O fracasso no vestibular era algo que ele pensava já estar destinado à sua condição. Agora José estava confiante para o concurso que iria prestar para uma rede de bancos. Afinal, não havia o que temer, pois tinha sido o único da família até o momento a concluir os estudos até o 3º colegial.

No feriado da páscoa José foi passear no shopping, embora sempre voltasse de mãos vazias, adorava o passeio. Ficava um pouco tímido em ver tantas pessoas bem vestidas, sorridentes e de mãos carregadas de compras coloridas. José pensava que todas aquelas pessoas tinham bons empregos que pagavam bons salários, tudo fruto do esforço individual. Para ele todas aquelas pessoas têm boas condições porque são inteligentes, conseguiram boas notas e excelentes empregos.

José via através das vitrines um mundo que não conhecia. Relógios, roupas, calçados, eletrônicos e outros objetos com preços que sequer havia sonhado antes. Seus sonhos, desejos e fantasias não tinham limites ao se deparar com coisas que José acreditava que um dia iria poder tê-las depois de muito trabalho.

Um sujeito narigudo, magrelo e sorridente passou ao seu lado e entrou na loja de relógios. José ficou reparando o que se passava lá dentro. Finalmente depois de muitos modelos o sujeito escolheu um relógio que José ficou espantado ao ver o preço que, embora fosse em dólares, pensou: 48 mil reais um relógio? Nossa! Esse sujeito está bem de vida!

José, embora soubesse que havia muitas pessoas que não tinham nem comida quanto mais um relógio de 48 mil reais, pensava que não era problema algum, pois era um direito de qualquer pessoa comprar um relógio qualquer que fosse, desde que trabalhasse para isso. No pensamento de José as pessoas são ricas por competência própria, se são pobres é porque não são inteligentes e por isso não conseguiram se dar bem na vida. Mesmo sendo pobre, José acreditava que não era por falta de inteligência, afinal, tinha concluído o ensino médio.

No dia seguinte lá estava José empacotando as mercadorias, meses e meses passavam e José recebia seu salário que era mínimo, mas imensos eram os seus sonhos, entretanto, quase nulas eram suas possibilidades de conseguir realizá-los.

[continua]

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4 Comentários em “Os heróis do capitalismo: José e o vestibular - parte 1/2”

  1. doc Diz:

    Isso nao é um post. é uma biblia… vc ta no site errado fdp…. haha

  2. Baleiro Diz:

    Fdp, cadê a ação dessa porra? Faz o cara roubar o relógio e depois tomar um espanco do BOPE… ahuaheuhea…

  3. adv Diz:

    haeuaheauehaeuaheaueae, o Bope é no Rio, o José é de sampa, só se fosse a Rota, aliás, existe ainda esse camburão preto? haeuaheauehaeua, os caras baxava direto lá no pq sao rafael

  4. Os heróis do capitalismo: liberdade, individualidade, igualdade - parte 2/2 | LOG de MSN Diz:

    [...] Mas e o José, que tem a ver com isso tudo? – Continue lendo… [...]

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