Os heróis do capitalismo: liberdade, individualidade, igualdade - parte 2/2

Escrito por adv on 27 de outubro de 2007 – 21:51 -



O Capitalismo sustentado pela doutrina liberalista em um primeiro momento, e neoliberalista no momento atual, é alimentado por três axiomas básicos: liberdade, individualidade e igualdade. Sendo a individualidade o “coração” do sistema Capitalista. O ar está para os seres vivos da mesma forma que a individualidade ao capital.

O individualismo pressupõe que os seres vivos são diferentes e cada um deve por si só, buscar meios para desenvolver ao máximo suas aptidões e habilidades na competição com o outro.

A igualdade aparece enquanto pressuposto do Estado em garantir os direitos individuais e possibilitar as condições básicas e iguais para que o indivíduo desenvolva seus potenciais. Se o Estado garante tais condições e o indivíduo não se desenvolve, ele é o único responsável pelos seus fracassos. Percebe-se aqui um ponto fundamental do Capitalismo, na medida em que pressupõe que o sujeito é o único culpado pelo seu não-desenvolvimento, alimenta a desigualdade social, ou seja, admite-se enquanto algo natural o fato de que alguns ocupam posições mais baixas que outros nos substratos sociais. Além de que, a realidade mostra que jamais as condições dadas aos indivíduos são iguais.

Claro que há diferenças biológicas entre os seres, não pretendo negá-las, mas sim, apontar o quanto essas diferenças são usadas enquanto justificativas das desigualdades sociais. Esta que deveria ser produto da forma como se configura o trabalho e a exploração na ordem econômica.

Outro elemento que não pode faltar no Capitalismo é a utopia da liberdade. Estampada graciosamente no diálogo das Instituições e dos meios de comunicação. A liberdade entendida no neoliberalismo é aquilo que legitima que todo sujeito pode transitar entre as classes sociais e desenvolver suas aptidões na competição com o outro livremente.

Nesse contexto, está na responsabilidade de cada sujeito a construção da sua condição social. Na doutrina liberal o pobre é aquele que não teve competência para se desenvolver e conseqüentemente se apropriar dos bens da humanidade. Aquele que não consegue conquistar um lugar de destaque é acusado e julgado pelo sistema capitalista enquanto o único responsável pela sua condição desigual.

A educação no contexto neoliberal é difundida pelo Estado enquanto a instituição responsável para possibilitar o desenvolvimento das potencialidades de cada um. A realidade nos aponta que a educação é cada vez mais uma mercadoria vendável. Mas seja ela de âmbito público ou privado, é vista enquanto garantia de uma boa colocação social, ensinando desde criança que as habilidades de cada um é que garantirá a mobilidade social. Na educação liberal o que importa é o resultado imediato (tecnicismo), as reflexões, pensamentos e as bases filosóficas devem ser evitadas quando não muito passadas de forma distorcida. Formando assim, um sujeito, independentemente de sua classe social, conformista com a realidade aparentemente desigual, sendo esta, vista enquanto uma condição necessária e normal.

Esse breve exposto traz apenas algumas considerações básicas de como se mantém as desigualdades sociais e o discurso das pessoas carregados de conformismo e, ainda mais perverso, contendo a justificativa de que o sujeito é pobre ou rico como se fosse o único responsável por essa condição.

Assim sendo, muitas vezes, até inconscientemente enquanto mais um sujeito a serviço do capital, é tão comum verificar a barbárie das idéias que alimentam o “darwinismo social” (confira esses comentários). Inegavelmente que Darwin contribuiu muito para construção de um conhecimento que possibilita clarificar a nossa origem e evolução enquanto espécie, mas em nenhum momento trouxe sua discussão para o âmbito social.

O discurso do “darwinismo social” não tem nenhuma fundamentação teórica consistente, é unívoca, enquanto discussão desprovida de reflexão e pensamento. Copiaram a idéia de Darwin e mudaram a ordem biológica para a ordem social. É produto de homens das cavernas que tentam explicar a civilização.

Mas e o José, que tem a ver com isso tudo? – Continue lendo…

O José não tem culpa alguma. Já nasceu em uma família com baixas condições. Sua educação não possibilitou o desenvolvimento de suas condições básicas de cidadão, muito menos sua postura crítica e consciente frente à realidade contraditória. Pelo contrário, sua educação foi a de culpabilização, colocando-o enquanto o único culpado por repetir a 3ª séria por três vezes.

Embora possa parecer a constatação do óbvio que as agências educacionais (e não só na área da educação, mas da saúde, moradia, saneamento, etc.) na realidade concreta se mostram desiguais em termos de quantidade e qualidade, o José além de ser apontado pelos outros enquanto culpado pelos seus fracassos, se sente em conformidade com a realidade, isto é, acredita que trabalhando por um salário que mal garante suas condições básicas de sobrevivência irá conseguir uma ascensão social. O discurso do José é desprovido de uma análise do modo como se configura o trabalho alienado na sociedade. O José é mais uma vítima do Capitalismo, jogado ao relento enquanto condição necessária para que outros possam desfrutar o que seus sonhos não podem nem imaginar.

Assim sendo, o José é mais um dos milhares de brasileiros que, antes culpados, são vítimas de um sistema neoliberal que legitima as desigualdades escudadas pelos discursos da liberdade, da igualdade e da individualidade.

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6 Comentários em “Os heróis do capitalismo: liberdade, individualidade, igualdade - parte 2/2”

  1. Maurício Khoffer Diz:

    liberdade, igualdade e invidualidade, as 3 grandes sustentações do capitalismo, falou tudo, os 3 grandes depósitos de alimentação aos trolls

  2. Usuário Maiden no diHITT Diz:

    Os heróis do capitalismo: liberdade, individualidade, igualdade - parte 2/2…

    exposto sobre os principais axiomas da doutrina liberal que alimenta o sistema Capitalista…

  3. Anônimo Diz:

    Os heróis do capitalismo: liberdade, individualidade, igualdade - parte 2/2…

    exposto sobre os principais axiomas da doutrina liberal que alimenta o sistema Capitalista…

  4. Cláudia Borralho Diz:

    Belissimo blog, vim parar aqui acidentalmente e gostei bastante da descoberta. Continue! Cláudia - Portugal

  5. adv Diz:

    olá Cláudia, obrigado pelas considerações e espero vê-la por aqui mais vezes ;)

  6. Crítica às campanhas da ABAP que visam inocentar as publicidades de cervejas | LOG de MSN Diz:

    [...] do belo artifício da liberdade no sentido de “tudo posso” , um dos pilares de uma economia liberal, a ABAP coloca os publicitários como criativos e os [...]

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