Redação do vestibular Fuvest 2008 – que correção você faz da sua?
Escrito por adv on 7 de janeiro de 2008 – 21:55 -
O tema da redação da Fuvest de 2008 me decepcionou: “Mundo digital”. Não enquanto tema, mas pela proposta explícita. Como é de costume, a redação da Fuvest contextualizou o tema com três pequenos textos. Um artigo da revista Veja – que triste!!! – apontando sobre informações falsas na rede; outro foi um texto da ONU falando sobre a criação de uma biblioteca mundial e por último, um texto falando sobre as noticiários digitais.
Dentro desse contexto a Fuvest pediu ao vestibulando para refletir sobre as influências do mundo digital na vida moderna – pior se fosse na vida medieval! E ao contrário do tema passado (amizade), que exigia muito do pensamento abstrato e filosófico, este ano os três textos veicularam conteúdos objetivos e jornalísticos.
Acredito que o vestibulando que quisesse discorrer sobre o assunto, trazendo em tona as conseqüências e mudanças significativas na vida humana, como, por exemplo, a desintegração dos vínculos entre as pessoas, a substituição de formas afetivas reais por formas virtuais, o frenesi dos símbolos e títulos de notícias que priorizam a descrição em detrimento da reflexão, a ocupação do tempo das pessoas cada vez mais em formas de trabalho e estudos técnicos-tecnológicos visando atender as exigências de um mercado movido pelos resultados do “aqui-e-agora”, etc., seria arriscar.
Será que alguém que coloca textos jornalísticos e objetivos como suporte para discussão vai querer saber meu pensamento crítico e filosófico sobre o assunto? – É arriscado! – Se fosse eu na “pele” do vestibulando optaria por fazer o básico, uma dissertação no estilo jornalístico, simples e objetiva, nada além da constatação do óbvio.
Nesse sentido, talvez seria interessante apontar pelo menos a reflexão mais comum do assunto, isto é, ao mesmo que a sociedade ocidental faz fortes apelos ao consumo dos digitais, nos bombardeando com tecnologias cada vez maiores em potenciais e menores no tamanho, também se apresenta como cenário de exclusão, ironicamente chamada de “exclusão digital”.
O mundo digital, por possuir mercadorias que agregam muitos valores, conseqüentemente desagrega os lucros envolvidos. Os detentores da marca, aqueles que lapidam e etiquetam o produto final, abocanham a maior fatia dos lucros, já a mão-de-obra nas grandes produções fica com a menor parcela. O trabalhador da zona franca de Manaus, embora muitas vezes produz centenas de plasmas, celulares, notebooks e outros digitais, se contenta com seu televisor de 14″ polegadas.
Enfim… uns construindo essa discussão para um lado um pouco mais filosófico – sem apelar muito – e outros fazendo o básico, de forma objetiva e descritiva, daria uma diversidade de pontos de vista interessantes que acredito serem válidos para cumprir o objetivo do vestibular decepcionante para uns e ótimo para outros, mas fato é que este ano tiraram de cena uma reflexão mais complexa daquela que vemos comumente apresentada para essa discussão.
Àqueles que se depararam com esse assunto e já tiveram oportunidade de conhecer a discussão de Zygmunt Bauman, isto é, uma crítica sociológica do mundo moderno, construída através de seus conceitos de modernidade-líquida, amor-líquido, ou seja, um mundo “frágil” onde tudo que se faz se desfaz frenéticamente, talvez tenham ficado em “cima do muro” – chamo o Bauman para me acompanhar nessa dissertação ou não?! – Não se preocupe, depois que você passar no vestibular, faça como eu, como Rubem Alves e tantos outros, ou seja, vomite tudo e quebre as correntes do pensamento da educação mercadológica que nos exigem…
Boa sorte, valentes vestibulandos!!!
Leia também:
- O que é Filosofia e para quê serve – reflexões da reflexão
- Redação da Fuvest 2007
- Diálogos em 2008
- O sentido em comunicação
- O que é o Humanismo que surgiu no Renascimento

janeiro 14th, 2008 at 15:59
Também me desapontei com o tema! Achei muito “vulgar”, ou melhor, algo no sentido jornalístico ao invés de ter uma crítica por trás como é de costume da Fuvest, gostei do blog