Sexualidade e estética: um século assombrado pelo espelho
Escrito por adv on 20 de fevereiro de 2008 – 23:48 -Freud descobriu que a repressão sexual era responsável por grande parte dos problemas psicológicos enfrentados pelas pessoas. Isso no século XIX, mas e agora que o sexo chega a ser assunto banalizado, continuamos a sofrer por repressão sexual?
Vou deixar que cada um busque no íntimo uma resposta para tal questão, entretanto, Freud alertou que para todo sofrimento psíquico há uma causa sexual, por mais oculta que esteja.
Os conteúdos que apresentamos sobre sexo têm nos ajudado? - Essa é a pergunta que me parece ser mais oportuna frente ao crescente número de “gurus” que se autodenominam terapeutas sexuais e prometem a cura de toda apatia sexual.
Astrólogos, tarólogos, personagens de televisão, remédios populares, ditados chineses e populares, revistas de modas… Existe uma infinidade de coisas que se voltam para a saciação da sexualidade humana.
Os gurus estão todos prontos para emitir uma nova regra sexual; um novo comportamento que vai agradar o seu parceiro(a); etiquetas que prometem dominar, literalmente, o seu amor; e é claro, inúmeros derivados de ditos, crenças populares e os mais absurdos “compostos” que prometem curar a impotência sexual.
O infeliz que acata tais informações como diretrizes para sua vida sexual acaba ficando com o bem estar psíquico comprometido, quando não muito, compromete também as funções fisiológicas. Assim, acaba causando problemas a si mesmo e a quem estiver por perto, afinal, um ato sexual satisfatório pode ser considerado o motor pulsante da vida.
Sem saber o que fazer, envergonhado de si próprio e dominado por uma sensação de excluído daquela sexualidade vendida pela mídia, esse público encontra orientação com os gurus da MTV, com as receitas vendidas nas revistas ou pelas palavras do “especialista” em sexualidade humana que consulta o que as cartas e o posicionamento dos astros reservam a você, etc. Uma busca interminável que sempre deixa o tão sonhado prazer em aberto: essa dica não funcionou, mas um dia irei encontrar uma que funcione!
Quem não consegue acompanhar as novidades da vitrine montada pelos gurus sexuais acaba sofrendo com a própria imagem refletida no espelho. Não por incapacidade própria, mas por criar uma realidade a partir do irreal.
É comum e triste ver garotas jovens passando horas a se lamentar com a própria estética, que vai desde os traços físicos corporais até os apetrechos da moda. O mesmo tende a ocorrer com os garotos que, se antes não sofriam desse mal, talvez por uma cultura machista que sempre apontou como uma obrigação da mulher estar “em dia” com o espelho, agora já estão chegando à igualdade. Mulheres cobram homens e vice-versa.
Ambos arquitetam seus ideais de identidade na imagem digitalizada do modelo. Mas o virtual é pixerizado, tons de cores e disposições espaciais são intencionalmente colocados em perfeita harmonia mascarando o real. Quando o sujeito se depara com as contradições da realidade nada poderá restar além do que imergir na decepção.
Esse texto é breve e ínfimo diante da grandeza da discussão que poderia ser feita acerca da construção dos nossos ideais estéticos e, principalmente, sobre a sexualidade. Mas diante desse breve contexto, encontro a pergunta: quem sofre mais, quem na repressão conviveu com o sexo como sendo coisa demoníaca ou quem agora sofre por excesso de informações sem fundamentação?
*Imagem: O fruto proibido (1509) - Michelangelo
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fevereiro 23rd, 2008 at 14:29
Oi, muito bom o seu texto. Com certeza a sua indagação final é algo para se pensar.