Vínculos afetivos, trabalho e vida no mundo globalizado
Escrito por adv on 28 de fevereiro de 2008 – 20:25 -(…) a vida líquido-moderna é uma recitação diária da transitoriedade universal. Nada no mundo se destina a permanecer, muito menos para sempre. Os objetos úteis e indispensáveis de hoje são, com pouquíssimas exceções, o refugo do amanhã. Nada é necessário de fato, nada é insubstituível. Tudo nasce com a marca da morte iminente, tudo deixa a linha de produção com um “prazo de validade” afixado. - Zygmunt Bauman

O número de vítimas que a globalização faz a cada dia é avassalador. Este processo não é recente, Marx já antevia em sua célebre frase: “Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar.” Embora não seja recente, a velocidade com que ocorre atualmente e os “desmanches” que deixa por onde passa são em ritmo frenético.
Se por um lado cresce o mundo simulado dos tempos modernos, do consumo em excesso, das facilidades dos serviços e o mundo paradisíaco que as tecnologias oferecem, por outro a tácita face desse processo destitui da vida social quem não consegue acompanhar a velocidade da mudança.
Uma série de elementos fazem o leque de perda dos chamados, literalmente, “perdedores” no jogo do capital. Perdem o emprego, o prato de comida, o teto, a família, a dignidade e outros marcos de sustentação da vida social.
Tidos como os próprios culpados por não terem encontrado o estreito e difícil caminho ao paraíso, os excluídos têm agora ao redor uma infinidade de caminhos, mas todos eles levam ao inferno. Quem conseguiu pegar o bonde da globalização luta para não ser expulso do trem que parte em alta velocidade, os que já caíram dificilmente voltarão a pegar carona, estão mais próximos de se afundarem cada vez mais.
Porém, a globalização não implica apenas em mudanças da movimentação do passaporte de troca de bens e serviços - o dinheiro. Os seres humanos também têm que se adequarem às personalidades mercadológicas exigidas pelas mudanças.
As quitandas de esquina já não fazem parte da paisagem urbana e do círculo de amizades do bairro. Foram engolidas pelos grandes hipermercados que fazem o encantamento do desejo do “estar incluído”. Onde quer que haja possibilidade de vínculos afetivos a globalização passa e esteriliza, deixando um cenário com regras de sobrevivência aos mais fortes em quantidade de escrúpulos. Quanto mais escrupuloso melhor. Quanto menos pensar na existência, nas emoções e conseqüências das ações, melhor. O que importa é o “aqui-e-agora” quantificado no dinheiro.
Os encontros de praça já foram incinerados no forno do obsoleto. Agora são feitos através do mundo virtual, encobertos no simulacro da imagem digitalizada que serve como uma embalagem para definir se o encontro poderá a vir ocorrer na vida real. Se vier a ocorrer a embalagem pode não vir reproduzida à maneira idêntica do digital e o conteúdo tende a ser descartado antes mesmo de verificado.
Vivemos em multidão, porém, sozinhos. Aglomerados de casas com portões e muros que ocultam cada vestígio da existência de vida humana. As ruas estão repletas de seres humanos desconhecidos, quando muito os conhecidos recebem um breve cumprimento em distância, o que já é o bastante. - A multidão que vivemos é eminentemente estruturada em regras mecânicas de etiquetas sociais. Com base em estímulos e respostas de convivência social que nos mantém em certa distância da qual nos sentimos seguros, pois, a confiança não resiste ao modo de vida dos negócios e do dinheiro.
Paira no ar um sentimento de desconfiança universal. Nossos vínculos são negociáveis como mercadorias. Para que facilitar a sedimentação de vínculos duradouros se posso cair em uma armadilha, ser usado e depois descartado tal como fazemos com as mercadorias?
O que você quer de mim? O que você tem para me oferecer? Quais são as provas de verdade que você pode colocar na mesa? - Há inúmeras perguntas que nos mantém afastados. Insegurança e desconfiança são as únicas respostas que temos para oferecer um ao outro.
Todos nossos vínculos tendem a ser baseados em contratos que colocam uma condição no caso da dissolução. O casamento é realizado aos beijos e alegrias do casal, mas em oculto fica um contrato que dispõe sobre o quantificável em dinheiro caso amanhã os beijos virem tapas.
Os namorados fazem e refazem o contrato verbalmente de acordo com o devir. As fronteiras que definem até um ou outro pode ir são demarcadas nas relações de troca baseadas no fazer para receber.
As amizades são feitas na mesa do bar através dos contos que quantificam as conquistas e as perdas. - Essas últimas só são contadas se servirem para ilustrar um ganho através da perda.
Os contratos de empregos podem ser feitos hoje, mas desfeitos amanhã para ocupação de alguém mais “habilidoso”, que é aquele que produz mais e aceita ganhar menos. Do contrário surge uma nova tecnologia que destitui o sujeito que parou para o descanso noturno.
Nossos cérebros estão demasiadamente defasados em relação à velocidade do progresso. Guardamos o nome da rua, de alguns familiares e outros conceitos que precisamos na vida profissional. O que vai além está entregue às memórias eletrônicas que guardam todo sentimento de que estamos vivendo a era da informação, onde não é preciso fazer mais esforço além do sentar e girar o mundo através dos “clicks”.
Vida é trabalho e trabalho é vida. Não são duas coisas diferentes, é um processo único. As horas de descanso não significam que são horas livres do trabalho. O trabalho não termina ao turno das 8 horas diárias, o trabalho impregna o modo de ser, de pensar e de agir; o ambiente enclausurado das obrigações, cumprimentos e metas acompanham os pensamentos e anseios após o término do expediente. - O processo de adoecimento pelo trabalho é uma constante, exigir de alguém o esquecimento do trabalho é como exigir-lhe a morte.
Corremos atrás de títulos, certificados e diplomas com a idéia de garantir um bom pedaço da riqueza produzida, garantir uma vida digna, confortável e segura. Mas os desejos parecem ser eternamente adiados, os esforços de um profissional por mais renomado que seja, quando muito dá a garantia de um descanso cômodo para poder olhar outros detalhes da vida que nunca puderam ser vistos devido ao tempo dos negócios.
Fazer do trabalho uma fonte de prazer é algo para poucos, exige muito mais do que o dinheiro em abundância. Do contrário o tempo de vida pode não acompanhar a velocidade dos sonhos.
Para onde corremos tanto? Para a vida ou para a morte?
*Imagem: Explosão - Salvador Dali (1954)
*Vidas desperdiçadas - Zygmunt Bauman (1995)
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fevereiro 29th, 2008 at 1:48
Olá, adv, congratulo-o por mais um dos seus bem elaborados e críticos posts; este em especial, pelo preâmbulo ser composto por um excerto de um livro de Zygmunt Bauman, um dos meus sociólogos prediletos.
E acredito que esteja, talvez, contida na sociologia de Bauman, uma exequível resposta à pergunta com que encerra este post…
“Podemos dizer que, como um pêndulo, nos movemos de tempos mais felizes para tempos menos felizes e de menos felizes para mais felizes[...], aproximando-me dos meus 80 anos, não mais acredito que possa existir algo como uma sociedade perfeita. A vida é como um lençol muito curto: quando se cobre o nariz os pés ficam frios, e quando se cobrem os pés o nariz fica gelado. Há sempre um custo a ser pago para a melhora numa determinada direção. Mas insisto que a sociedade que obsessivamente se vê como não sendo boa o suficiente é a única definição que posso dar de uma boa sociedade. Gostaria que tentassem (os jovens), apesar de tudo, apesar de todas as tendências em contrário e de todas as pressões de fora, reter na consciência e na memória o valor da durabilidade, da constância, do compromisso. Os jovens podem contar unicamente com eles próprios e só haverá em suas vidas o sentido e a relevância que forem capazes de lhes dar.” - Zygmunt Bauman, em entrevista à Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, professora aposentada da USP.
Um belo depoimento, soando como desabafo, do considerado “profeta da pós-modernidade”, que, como ele insiste, nunca desistiu de mostrar a seus leitores que o mundo pode ser diferente e melhor do que é… =]
Agradeço o espaço.
Um leitor de gradual contumácia do LOG de MSN.
fevereiro 29th, 2008 at 11:30
Olá Glauco, obrigado pelas considerações e por enriquecer esse post. Confesso que essas colocações do Bauman - como outras tantas -, me deram “calafrios”. De fato pode ser considerada uma excelente resposta, que permite pensarmos e refletirmos ainda mais nossas ações tendo em vista o “para onde estamos caminhando” e, para tal, o pensamento de Bauman é de fundamental importância.
março 7th, 2008 at 8:31
Não sou filósofa. Sou mãe. E, vi meu filho de 15 anos descrito em quase todas as afirmações do post. Só um detalhe que venho observando cada vez mais entre os jovens adolescentes, o dinheiro só importa como fator que permita seu isolamento no mundo virtual. Quer trabalhar, aprender, amar, sem levantar-se da frente do PC. Temos, como família, batalhado diariamente contra os excessos, tentando fazer com que nosso filho auto-administre sua vida de maneira equilibrada. Estamos impondo limites quando (e sempre) ele não consegue, mas o preço da insatisfação do jovem é altissimo, a ponto de não se identificar nem com o corpo, nem com a alma, apenas com a mente. O que fazer?
março 9th, 2008 at 20:12
[...] Comentário referente ao post intitulado “Vínculos afetivos, trabalho e vida no mundo globalizado“ [...]
junho 2nd, 2008 at 20:59
Comentário ao assunto sobre configuraçoes vinculares.
Acredito que tudo isto está acontecendo sim, e como profissional é necessário remar contra a maré.
De que adianta ter a consciencia se não obtivermos a mudança, ou pelos menos tentar.
Acho que poderíamos fazer uma corrente do vinculo.
Começaremos com o que ? boa pergunta e até eu me vejo pensando…como poderemos começar…se muitas vezes este mundo nos parece assustador.
Acho que poderemos começar daí.
Ao olhar um transeunte, ve-lo como semelhante, perceber que se eu tenho dores, fatiga, fome, cansaço, o que será que ele tem? Ai, quando saimos de nós mesmos, e olhamos o outro em suas necessidades poderemos nos aproximar, não como superior, desvinculado de afeto, mas como próximo que sofre, chora e ri… quem sabe assim vamos ser mais pessoas?
junho 3rd, 2008 at 0:24
Olá Vânia, o seu ponto de partida costuma ser chamado de empatia; sem dúvidas que é um ótimo caminho, infelizmente uma ampla parcela das pessoas costumam mais julgar e atacar de acordo com seus pontos de vista antes de se colocarem no lugar do outro.