Considerações históricas acerca da homossexualidade
Escrito por adv on 28 de março de 2008 – 10:21 -Introdução
A homossexualidade é um assunto polêmico em várias culturas. Para buscar os motivos das discórdias e tentar clarificar um pouco o assunto, do ponto de vista Ocidental, inevitavelmente, faz-se necessário buscar um sentido histórico, levar em conta o patriarcado (assunto já comentado) e a religião judaíco-cristã.
Se estamos com sede bebemos água, se sentimos fome procuramos por comida, se sentimos frio procuramos abrigo. Dizemos sem problema algum que estamos com sede, fome, frio e outras necessidades biológicas. Mas por que não dizemos naturalmente que estamos precisando copular ou transar?
A sexualidade humana caminha lado a lado com a história da humanidade, um paradoxo que ao mesmo tempo em que é uma necessidade biológica - hoje muito mais social -, carrega um fardo milenar de mitos, crenças, diferenças e altas doses de censura e mistérios criados pelo próprio homem.
O patriarcado em conjunto com a religião judaico-cristão, um complementando o outro, colocaram inúmeras barreiras entre homens e mulheres, condenando a sexualidade à atividade diabólica. As marcas deixadas são profundas e permeiam até os dias de hoje, o que é custoso tanto para homens como mulheres.
Deus selou o destino da mulher, “Multiplicarei sobremodo o sofrimento da tua gravidez. Em meio a dores darás à luz filhos, o teu desejo será para o teu marido e ele te governará.” (Gênesis 3:16). E o homem a sua superioridade à da mulher.
Homossexualidade na Grécia?
Na Grécia Antiga mulheres eram meramente objetos para criação de exércitos de guerra. A moral valorizava o homem que mantinha relações sexuais, necessariamente, com moças ou rapazes. Homens adultos que mantinham relações com outros adultos, homens ou mulheres, estavam colocando em risco a sua masculinidade.
Diferentemente do que costumam dizer, é errado dizer que na Grécia Antiga era permitido ter relações homossexuais, os gregos desconheciam o que é homossexualidade e heterossexualidade. Assim, dizemos que para os padrões sexuais da época, homens que tinham relações sexuais com rapazes representavam bem sua masculinidade. Mais másculo esse tipo de relação do que o homem com a mulher, já que a mulher era meramente um objeto subordinado ao homem.
O prazer não era condenado na Grécia Antiga, pelo contrário, os gregos cultuavam o prazer das festas e das orgias.
Homossexualidade na Idade Média
Na Idade Média onde o Cristianismo ja exercia grande influência no Ocidente, haveria uma nova ruptura na sexualidade onde o prazer e o erotismo deveria ser excluído em absoluto. Deus fez o homem para a mulher e a mulher para o homem, ou quase isso, a mulher para a submissão e respeito ao homem. Nesse período o termo “homossexualidade” também era desconhecido.
A sexualidade passou a ser controlada, o sexo era atividade suja e degradante, considerado extremamente repulsivo perante o “sagrado”. O homem não deveria se entregar ao prazer da carne, o sexo estava apenas reservado para procriação e deveria ser isento de erotismo. Já o homossexualismo passou a ser visto como crime passível à pena de morte, assim como o adultério e o incesto.
Era clara a oposição do clero frente ao homossexualismo e à sexualidade. Deus deu a sexualidade ao homem apenas para procriação, qualquer atividade que levasse ao prazer erótico era pecado mortal. Sodoma e Gomorra são bons exemplos do que o Deus judaico-cristão é capaz de fazer para quem ousar desfrutar dos prazeres sexuais.
Por outro lado, o próprio clero era acusado de práticas homossexuais nos mosteiros. Monges e rapazes formaram pares “insaciáveis” às escondidas.
As penas aplicadas pela Igreja para esse tipo de atividade variava de acordo com o “status” social do praticante. Os monges e outros eclesiásticos eram punidos com penas brandas, já os que não tinham nada a oferecer para o clero eram condenados à morte, podiam ser queimados vivos, torturados, castrados e enforcados.
Homossexualidade na Idade Moderna
A Idade Moderna permaneceu sem grandes mudanças. As torturas e crueldades ainda eram reservadas aos que ousavam contrariar a lei natural imposta pelo Deus cristão.
Homossexualidade na Idade Contemporânea
Na Idade Contemporânea algumas mudanças irão ocorrer. A ocorrência do coito ou não iria determinar a gravidade da pena a ser aplicada ao homossexual.
A sodomia era o passaporte para o inferno, sendo os papas os únicos capazes de absolver o condenado. Caso não houvesse coito durante a prática, o sujeito era mais um delinqüente do que um condenado.
Finalmente, só em 1869 a homossexualidade passa a suscitar interesses de estudiosos. Mas é apenas o primeiro passo de um cenário cheio de condenações e exclusões.
Para alguns a homossexualidade era uma perversidade que deveria ser controlada pelo Estado, para outros, é uma doença que deveria ser estudada e tratada. Foi nesse contexto que surgiu o termo “homossexual”, criado pelo médico Benkert para designar aqueles que sentem atração sexual por outro do mesmo sexo.
Substituíram a fogueira, a forca, o apedrejamento e a castração pela exclusão moral. O homossexual passa a ser um doente perverso, representante de tudo que suscita indignação. Era, sobretudo, uma ameaça às boas famílias e ao padrão de homem “machão” de uma sociedade estruturada sobre a égide do patriarcado.
A homossexualidade não tem espaço reservado dentro de um modelo patriarcal. Muito menos dentro da fé judaico-cristã. Os religiosos não mais acenderão fogueiras em nome de Deus para queimar esses “desviantes”, mas alimentarão um repulsivo ódio a esses “pecadores”. Alguns, adotarão uma atitude “politicamente correta” e dirão que só o Criador é capaz de julgar. E o julgamento já foi feito, Deus nunca erra, portanto, ele não voltará atrás, a pena reservada ao homossexual já foi decretada, é a mesma que foi dada a Sodoma e Gomorra.
No século XX o palco reservado ao homossexual é o da segregação social e moral, além da violência praticada por grupos que se declaram, literalmente, “caçadores de homossexuais”. Mas isso será para um próximo post…
[continua...]
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