Anorexia nervosa: um drama de responsabilidade social

Escrito por adv on 3 de abril de 2008 – 13:53 -



Letícia nasceu com pouco mais de 3 quilos, era cheia de “dobrinhas” pelo corpo que seus pais adoravam apertar.

À medida que Letícia ia crescendo seus pais ficavam ainda mais encantados com a beleza que ia se relevando na filha. Aos 11 anos era a maior garota da sua turma de amigos, alegre, seus olhos demonstravam vivacidade e colorido cristalino.

Sua mãe sempre dizia que ainda iria ver a filha desfilando nas passarelas. Esse não era o sonho de Letícia, mas ela pensou que seria uma boa idéia após ver um desfile de moda na TV. O cenário era maravilhoso, no palco os holofotes seguiam os passos de muitas jovens que pareciam flutuar. As músicas dançavam a cada passo das modelos. Uma fileira repleta de celebridades aplaudia de pé cada parada, cada suspiro, cada sorriso, cada pose! Fotógrafos disputavam quase à tapas as posições centrais.

Outro dia, mãe e filha viram na TV a entrevista de uma grande modelo. Uma estória encantadora, garota humilde que com muito esforço e dedicação conquistou o mundo e o glamour. Seus olhos brilhavam em sintonia com o brilho dos carros luxuosos, dos apartamentos em frente ao mar, e das viagens pela Europa que a modelo esbanjava.

Decididas, foram atrás de agências de modelos. Bem recepcionadas, todos se encantaram com o rosto da adolescente, mas recusavam suas medidas de busto, cintura e quadris. - Letícia, você tem um grande potencial, mas precisa fazer uma dieta, você está muito gorda! Como você espera entrar em um vestido de seda?! - Disse um diretor de agência se referindo aos 3 ou 4 centímetros excedentes da garota.

Ao sair da agência Letícia se deparou com uma garota de sua idade saltitando de alegria por ter sido escolhida para fazer publicidade de uma marca de camisetas feminina. Letícia imaginou que a garota havia obtido sucesso porque era magra.

Dentro do carro, voltando para casa, a mãe de Letícia dizia:
- Eu sempre falei pra você maneirar, agora, culpa dessa barriga enorme a gente continua nessa vida sem graça! Se não fosse sua barriga você poderia estar no lugar daquela garota.

Cabisbaixa e chateada, Letícia chegou em casa, foi para o quarto e ligou a TV. Muito sonolenta percebia vagamente quanta gente bonita, sorridente e feliz se sucediam nos quadros televisivos em intervalos marcados por “plim-plim”. Pessoas diferentes, mas nenhum gordo, nenhuma gorda, todos magros, uns mais, outros menos, mas eram magros. - A receita do sucesso estava implícita em cada movimento corporal.

Letícia caiu no sono e acordou imersa em pesadelos. - O diretor chamando-a de gorda, a garota saltitando de alegria, os personagens jocosos da televisão, sua mãe insatisfeita… todos em uníssono pareciam dizer que Letícia estava barriguda, horrorosa, condenada aos insucessos e às rejeições.

No dia seguinte Letícia não tomou café, não almoçou e no jantar saboreou metade de uma maçã. Os dias foram se sucedendo e a metade da maçã diminuindo até chegar a uma azeitona por jantar. Tonturas, palpitações, fraqueza, apatia, dores de cabeça, câimbras, depressão, irritabilidade, amenorréia… era alguns dos freqüentes sintomas de Letícia, mas nada parecia superar sua imagem refletida no espelho que ainda dizia: sua gorda!

A mãe de Letícia que antes aprovou a atitude da filha em realizar a dieta, se mostrava desesperada ao ver os ossos sobressaltando do corpo. As tentativas de levar Letícia para ser internada e se recuperar com uma equipe multidisciplinar composta por psicólogos, psiquiatras, nutricionistas e enfermeiras, foram fracassadas. Nas poucas vezes que conseguiu levar a filha para consulta médica em consultório particular precisou da força física de dois homens. - Os vizinhos se chocaram com a cena.

O médico sozinho não foi capaz de criar condições para alguma melhora e o quadro clínico só piorava. As “dobrinhas” de Letícia sumiram, destacavam-se apenas ossos pontudos e frágeis. O cristalino dos olhos deu lugar a remelas que escorriam de um grande sulco no rosto que escondia um olhar tímido e aterrorizador. A alegria havia sido substituída por um semblante pálido e cadavérico. Nenhum amigo sobrou, seu único contato era através de emails trocados com pessoas anônimas de um grupo de outras garotas jovens que acreditam que uma alimentação só com gelo iria possibilitar o tão desejado corpo.

Numa manhã chuvosa a mãe ao entrar no quarto de Letícia se deparou com a filha desmaiada no chão, imediatamente a filha foi internada. Mas o coração não conseguiu aguardar os sonhos se concretizar.

anorexia

Epílogo:

Os holofotes e os flashes se apagaram. A música e os aplausos ficaram emudecidos. Na primeira fileira não há nenhum diretor nem celebridade. Os emails continuavam chegando, mas nenhum era enviado. Nenhuma pessoa ali presente conseguiria saltar de alegrias. Nenhum esforço e dedicação eram capazes de devolver o brilho. Nenhum “plim-plim” se escutava além dos ecos de soluços e choros. Não perguntaram as medidas de Letícia, pois ela coube confortavelmente em um “vestido” feito de cajazeira.

 

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