Precisamos caminhar - uma viagem através dos pensamentos de um ateu
Escrito por adv on 14 de maio de 2008 – 1:44 -
Os posts “A morte de Sócrates e a importância do seu pensamento“, “O que é Filosofia e para quê serve” e “O que é o Humanismo que surgiu no Renascimento” estão repletos de comentários com o mesmo teor do modelo acima.
Os títulos que começam com “O que é…”, “Como…” e outros que dão idéia de “receituários”, vêm na contramão dos meus pensamentos. Textos que começam com essas palavras me parecem se reportar a um conhecimento que é estático, isto é, como se pudesse ser definido um fenômeno de uma determinada maneira que encerra o seu conteúdo, isso implica em ter uma “verdade” e uma “mentira”. - Vejo isso como uma pretensão imensa, por isso sempre carrego comigo, da mesma forma como os católicos carregam o terço, a humildade de que nada mais posso fazer além de representar de determinada forma a realidade, num processo de construção e desconstrução de caminhos, de modo a conseguir caminhar, sem se preocupar se algo “é” de determinada forma, prefiro dizer que no momento “está” se revelando de determinada forma ao meu modo de ver.
Dirão alguns - ou muitos - que isso é algo de pensamento “perturbado”, que não se satisfaz com nada - partirei então, dessa representação. Reporto-me às dificuldades que encontro para enquadrar determinado assunto em palavras, a cobrança que tenho comigo mesmo para precaver de passos em falso, muitas vezes em vão porque jamais daremos conta de abranger a totalidade. Essas características se devem, em parte, a Nietzsche que destruiu todos os corrimões e trincheiras onde residiam as aberrações da “verdade” e da “mentira”. Onde haviam fadas colocadas pela boa educação vinculada às ideologias positivistas e liberais, tão presentes, infelizmente, no nosso currículo educacional, sobretudo, nas escolas públicas, Nit colocou “demônios” que se debatem, criticam e questionam entre si.
Para “piorar” a situação, veio Schopenhauer e destruiu o meu mundo. Tudo que vejo, penso e comunico verbalmente e não-verbal, são representações, jamais são verdades ou mentiras, certo ou errado, ruim ou bom. Às vezes, acham que eu acredito na Ciência da mesma forma que um fiel acredita em Deus, pelo contrário, a Ciência pode ser tão perversa quanto os deuses, mas, ela é legítima, não exige que você acredite, pelo contrário, ela agradece quando você critica, questiona, cavuca e remexe ainda mais o que já parece ser o caos. - Incansável tarefa de encontrar o caos depois do caos.
Dawnkins e Sagan, dois cientistas de ótimo nível que têm me ajudado a construir meus poucos alicerces, propõem ver a alegria, as maravilhas, e tudo que há de belo em cada processo da evolução natural e elementos físicos, biológicos e químicos que harmoniosamente compõem a natureza. Para ambos, a Ciência é capaz de dar um colorido à vida mais belo do que aqueles que encontramos nas próteses e tranqüilizantes oferecidos pelo sobrenatural. - É um ponto na qual eu discordo de ambos, me parece que o conhecimento - científico e filosófico - é um forte sentinela destituído do seu cargo de guarnição, trazendo inquietações e dúvidas. Nesse sentido, eu não sei se é possível afirmar que um religioso é menos feliz do que um cientista. Não serão eles belos sonhadores que dormem sob o conforto maternal de anjos e arcanjos? Do lado oposto, não estará o conhecimento - aquele capaz de libertar das masmorras do senso comum - com a cruel tarefa de encontrar sorrisos escovando cadáveres soterrados?
Certamente que isto é mais uma representação, e não quero dizer que Sagan nem Dawnkins estão errados, mas sim, pensam diferente. Alguns dirão que eu sou pessimista, talvez eu tenha aprendido a pensar assim com Schopenhauer. Se a árvore do fruto sagrado for derrubada por desgraças naturais fica mais fácil colher os frutos. - Esse é o meu pessimismo - se assim posso chamá-lo -, buscar colher as flores que sobraram ou que ainda podem brotar sob os escombros das ruínas.
Quero acreditar que em todo ser humano há uma centelha de riso, basta saber provocá-la. Em um assassino frio que mata não por apreciar o sofrimento alheio, mas porque não aprendeu outra forma de se livrar do próprio sofrimento. Um suicida que não encontrou outra forma de fazer o último pedido de socorro: eu gostaria de viver, procurei por uma chance mas só assim encontrei uma forma para que olhassem para mim. Duas pessoas que deixaram de ser amigos ou que não puderam sentir se únicos num momento de abraço, porque não souberam e talvez ainda não saibam como comunicar no sentido de coabitar, falharam ao conviver com as barreiras do próprio ego. Assim, parece que não há pessimismo o suficiente para sepultar o mundo em uma tumba rigorosamente lacrada, por outro lado, não há otimismo o suficiente que dê conta de colorir o mundo com todas as cores que não somente aquelas que o pintor pode ver.
Enfim, gostaria de finalizar parafraseando Nit. Vamos imaginar um abismo separado por dois lados, um, representa o seu nascimento, o outro, representa a idéia de desembarque, chegar a algum lugar. Você deve construir uma ponte, cada passo representa um pedaço dessa ponte, porém, cada pedaço está em movimento como uma esteira, assim sendo, não há como parar nem voltar atrás, só há uma opção caso você queira prosseguir - construir novos pedaços e seguir em frente. Além dessa dificuldade, há algo que não conseguimos enxergar com nossos olhos acostumados a captar reduzidas dimensões, para cada pedaço de ponte construída, mais aumenta a distância para se chegar ao outro lado. É um esforço inútil, mais cedo ou mais tarde o abismo irá nos engolir.
Para quê buscamos conhecimento, para morrer mais ou viver mais? - Gostaria de retificar um dos pontos do meu pensamento, parece que é necessário representar uma “verdade”, aquela de que precisamos caminhar mesmo que não saibamos para onde estamos indo, ou a confortável idéia de que estamos caminhando para um local de desembarque que irá nos revelar novos caminhos. Na realidade, Nit não desconstruiu totalmente as verdades, do contrário teria se encerrado no niilismo, sua proposta reside, sobretudo, na transvaloração, libertar-se das algemas, ou o estar se libertando, já que a liberdade absoluta devemos deixá-la no baú dos contos fantasiosos.
Caro leitor que conseguiu suportar ler até aqui, desculpe pelas trilhas completamente diferentes que esse post seguiu quando este autor apenas pretendia brincar, através de duas colocações: 1) penso que há garotos e garotas copiando aqueles posts citados no início e entregando como trabalho pronto aos seus professores; 2) caso você queira visitas em seu blog/site use e abuse de posts que comecem com “Saiba como…”, O que é…”, “Como fazer…”, “Os 10 melhores…”, eu não irei ler, mas há muita gente em busca de receitas milagrosas para construírem a ponte, infelizmente. - Talvez um dia eu me arrependa de fazer o papel de advogado do diabo.
(…) ninguém poderá construir a ponte que você em particular terá de atravessar sobre o rio da vida – ninguém além de você mesmo. Evidentemente, existem inúmeros caminhos e pontes e semideuses prontos para transportá-lo através do rio, mas somente ao preço do seu próprio ser. Em todo o mundo, existe um único caminho que ninguém além de você poderá tomar. Para onde leva? Não pergunte, apenas siga-o. - Nietzsche
*imagem: Anjos guiando as almas no pós-vida - Hieronymus (1500-1504) - Wikipédia
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