Fragmentos e destroços advindos do existencial
Escrito por adv on 17 de junho de 2008 – 16:34 -Como de rotina, quando meus rins páram de funcionar, submeto-me a longos e tediosos dias em um leito de hospital. - Saúde é uma excelente mercadoria ao capital, pelo menos enquanto o doente não morre, pois é preferível que ele fique sofrendo por vários dias. Custeado pela empresa, tive direito a um quarto e banheiro individual, frigobar - embora eu não pudesse usar uma vez que um doente renal crônico na minha situação não podia beber nada -, TV a cabo, ar condicionado, telefone, além de 4 boas refeições diárias. Só esqueçaram que para um doente tudo aquilo não tinha valor algum.
Parece o paraíso se pensarmos no oposto que ocorre na saúde pública no Brasil. - Mas não é! Sinto-me como um morto que ressuscitou novamente. Não pela graça de Deus. Mas pelo progresso científico que tem possibilitado os avanços médicos em tantas áreas, podendo aliviar o “sofrimento” de muitos.
Sofrimento entre aspas pois não são todos que gostam de passar dias no hospital e se recuperar. - No meu caso, preferia dispensar todo mal-estar e voltar a ser cadeias de carbono na natureza. Não foi a primeira, e nem será a última vez que tive que ficar paralisado num lugar que cheira à morte agonizante. Mas são poucos que têm a sorte de ter uma morte instantânea em um dia belo onde os pensamentos saltam em elementos positivos.
A juventude me ajuda. Um metabolismo altamente poderoso conquistado com muito exercício físico me dá o direito de ter uma recuperação rápida. Mas e o amanhã? - Sei que um dia meu corpo já não responderá tão bem, entre as potencialidades que temos em aberto, carregamos a certeza do envelhecimento, embora a indústria da beleza faz de tudo para escondê-la.
Vejo o amanhã através do eterno retorno. Muito exercício físico, muita massa muscular, uma dieta impecável, sem fumar, sem beber e por fim, usar tudo isso como moeda de troca na próxima recaída, adiando a morte ou pelo menos recuperar-se rapidamente.
Recupera-se o sistema fisiológico, mas a tarefa mais difícil é (re)construir novos sentidos, novas (res)significações, (re)pensar os pensamentos, voltar a caminhar tendo em vista um objetivo a ser percorrido, qualquer que seja.
Parece-me que cada vez que ficamos entre a vida e a morte e retornamos para a vida desvendamos mais um “mistério” da vida - mistério pelo fato de fecharmos os olhos e usar imaginação fértil para construir os sentidos. No final das contas o rei, a rainha e o peão irão todos para o mesmo lugar. Há vários recordes para se cumprir essa trajetória, mas não há troféu no final.
Quando a indústria da beleza, da moda, das dietas e uma parafernalha completa que afaga a idéia de uma vida saudável por um longo tempo te bater à porta, pense em beber e comer mais aquilo que você gosta. Fume mais, cheire mais. Seres humanos são capazes de colocar relação entre tempo de vida de um fumante e um não fumante, de um obeso e um malhado, acreditam que comendo frutas e legumes serão mais saudáveis do que se comerem frituras.
Ninguém é capaz de desvendar a totalidade das relações minuciosas que ocorrem na fisiologia do corpo como um todo. O câncer está para os vegetarianos, os carnívoros, os onívoros. Deixar de fumar não significa que você irá viver melhor e mais saudável. Comer aquilo que é agradável ao paladar ou aquilo que é potencialmente bom para o seu organismo não te dá o direito de viver mais ou menos. São todas potencialidades em aberto, mas você tem apenas uma vida para testar e sem direito a saber o resultado.
Cuidado com as hipóteses que a indústria do “bem-estar” oferece arbitrariamente, todas elas poderão não se concretizar no seu organismo.
Gostaria de corticóides para recuperar meus pensamentos, meus sentidos, meus planos, minhas metas. Mas não há. Por isso me aqueço com a idéia de jamais construir sem antes pensar na desconstrução, no constante devir entre a vida e a morte.
No momento estou apenas sentado no centro, analisando o vazio, o nada, o existencial. A paisagem se molda pelas ruínas do que sobrou. Preciso recolher, espantar a poeira para encontrar as palavras, os pensamentos, a criatividade, os planos… um dia desses eu faço isso, mas por enquanto reservo-me no direito de ficar na companhia do silêncio.
Enquanto isso irei me divertir ao ficar na platéia, olhando seres humanos bem polidos civilizadamente, etiquetados, protocolados, planejando o casamento dentro dos bons costumes, o trabalho, o acúmulo, o consumo… estão todos correndo para o matadouro sem olhar para os campos ao redor, embora estejam bem crentes de que estão progredindo.
Leia também:
- Você não precisa de Deus, nem nas horas difíceis
- Amizade, família, sonhos, trabalho…
- A morte de Sócrates e a importância do seu pensamento
- Re: Que pena, meu querido amigo não morreu
- Fale daquilo que você não consegue. Tente!














