Archive for the ‘Psicanálise’ Category
Vida e morte - você já parou para pensar na sua despedida?
Written by adv on 22 de dezembro de 2007 – 14:12 -
Que seja assim — a marcha do mundo é tal;/ Que me aconteça como a tantos outros./ Eles partem, seu bote se despedaça,/ E ninguém pode mostrar o ponto do sumiço./ Adeus, adeus! O sino do barco chama,/ E como demoro, o barqueiro me apressa./ E agora, ousado, parto através de vagas, tempestades e recifes!/ Adeus! Adeus!…
(Nietzsche, 1844 - 1900)
Qual o seu pensamento sobre a morte? - Essa pergunta implica em respostas divergentes quando não muito raro um silêncio profundo.
Entre as várias respostas, talvez, podemos destacar um ponto em comum: refletir sobre a morte dos outros e, principalmente, a nossa, é algo que gera angústias, portanto, devemos silenciar sobre o assunto. Morte que para uns é fim, para outros é início. Do mais cético ao mais religioso, todos nós em algum momento já sentimos os calafrios da finitude.
Os religiosos crêem que após a morte terão seu destino sentenciado ao inferno ou aos céus; outros acreditam que voltaram novamente para Terra encarnado em um outro personagem que vai variar de acordo com os seus feitos na vida; outros ainda, pensam que morreram e já estão encarnados em outra pessoa. Os ateus vêem a morte enquanto um retorno as cadeias de carbono na Natureza - este é o meu pensamento. Os céticos preferem não opinar… - Fato é que se perguntarmos quem quer ser o próximo a deixar essa vida, por mais conflituosa que seja, todos querem ser os últimos da fila, evidenciando, o que Freud dizia ser uma das fontes de sofrimento do homem: a dissolução e destruição do corpo, da vida.
É fácil verificar que todos nós achamos que seremos os últimos. Cremos que a fatalidade nunca estará onde estivermos. Admitimos que vamos morrer, mas de uma forma que não iremos saber. Um dos meus textos escritos com a finalidade de apresentação na disciplina Psicologia da Morte, logo nos primórdios do meu curso, esbravejei contra a nossa ousadia de falar sobre o tema. - Eu estava errado.
Hoje, penso que aprender a viver com os mortos nos ensina a viver com os vivos e, que para aprender a viver com os mortos é necessário aprender a viver no mundo dos vivos.
Nos meus 8 ou 9 anos de idade, minha primeira experiência com a morte não passou de um relato verbal dos meus pais avisando sobre uma tia que fora vítima de câncer. Quase não tínhamos contato, ela era de outra cidade. Logo depois, perdi meu coelho de estimação, o que me levou a longos meses de tristeza.
Nesse processo de luto, me culpei a todo instante achando que não havia dado o melhor para o "orelhudo", além de blasfemar contra o Deus onipotente e onipresente que eu acreditava na época. O Deus cruel do mundo cristão. Por que ele permitiu essa tragédia?
Aprendi três coisas com a morte da minha tia e do meu coelho, que viria a descobrir mais tarde no mundo acadêmico, como sendo três dos principais elementos presentes no processo de luto: quando perdemos alguém o sentimento de culpa pode nos acompanhar para o resto da vida; a morte adquire significados de acordo com os nossos vínculos com o objeto da perda, a morte de um filho, de um dos cônjuge e de um amigo, tende a ser as mais dolorosas além de destruir a nossa ilusão de invulnerabilidade - nos deparamos com a morte de inúmeras pessoas nos noticiários, mas não nos causa sofrimento, quando muito espanto pela forma como foi a fatalidade. E por fim, os enlutados irão encontrar alguma forma de praguejar contra a injustiça, na maioria dos casos, Deus ou o destino.
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Deus, religião e o sentimento religioso em Freud
Written by adv on 11 de novembro de 2007 – 15:05 -Há muito tempo atrás, ele [o homem] formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. - Freud (1929)
A religiosidade perpassa ao longo do processo de desenvolvimento das civilizações. Todas as religiões passam por diversas fases e conflitos, nem todas as perguntas têm em si as respostas imediatas, entretanto, tais idéias são difundidas pela civilização como um bem precioso.
Suas idéias são altamente valorizadas ao longo do tempo enquanto condição para o mais alto grau do bem-estar. A “Palavra de Deus” carrega em si, para o religioso, as condições para a conquista de riquezas, dos proventos, da cura para as doenças e os males, dentre outros desejos que a civilização não pode satisfazer.
A explicação que Freud dá ao sentimento religioso decorre do desamparo na qual o indivíduo é dotado ao nascer em um mundo que lhe parece estranho, hostil e cheio de enigmas, da existência à própria morte. O desamparo infantil decorre dos conflitos e dúvidas quanto as garantias sobre o existir e o futuro. Em Freud, tal desamparo também é o motor da civilização, uma vez que esta nasce na tentativa de diminuir o desamparo do homem diante das forças da natureza, dos enigmas da vida e da própria morte.
Decorre daí que o indivíduo tem um sentimento quanto à proteção, uma necessidade de um pai protetor que lhe trará um apazigüamento do temor, buscando indicar as soluções para dominar o desconhecido. A esse sentimento que estaria ligado à gênese do ideal de Eu, Freud denominou de “sentimento oceânico”, isto é, a relação do ser humano com um ser infinito, absoluto e abstrato. Outra discussão se faz necessária para explicar o sentimento religioso em Freud, a questão da civilização.
A análise de Freud para a questão da humanidade é de longe um quadro do terror. Porém, é no meio dessas trevas que Freud estabelece as bases para explicar os conflitos humanos, o sofrimento psicológico e a constituição do indivíduo. Em Freud a vida é sofrimento e viver é sofrer, tal como em Schopenhauer.
Ela nos proporciona muitas decepções e tarefas difíceis de suportá-la. Há 3 maneiras principais de experimentar o sofrimento: o advindo da decadência do nosso próprio corpo condenado à dissolução (morte); do mundo externo quando entramos em conflitos (imposições e regras culturais) e o último, advindo do nosso relacionamento com o outro. Relacionamento é desgastoso a qualquer um, traz uma série de conflitos e dissabores, no entanto, é uma faca de dois gumes, pois também é através dos relacionamentos que constituimos nossa subjetividade.
Apresentado o propósito da vida, a busca do prazer em detrimento do desprazer, verifica-se que o programa do princípio do prazer está em desacordo com o mundo, tanto quanto ao macrocosmo como o microcosmo. A cultura é a grande vilã e a vida em sociedade só é possível com o estabelecimento de regras, o que necessariamente causará confrontos com os desejos individuais.
As possibilidades de felicidade já são condenadas pela nossa própria constituição. Ela é restrita e sua manifestação é passageira. A felicidade intensa e prolongada não existe em Freud, nos comportamos de modo que só podemos experimentar prazer intenso em contraste: amor - indiferença; alegria - tristeza; gostar - odiar, etc.
O ceticismo é fundamental na psicanálise freudiana. Coloca-se um dilema, de um lado reconhece que o estado anterior à civilização é ruim por conduzir à barbárie (lei do mais forte); de outro, a civilização nos cobra um preço elevado para tornar viável a vida em sociedade, este preço é a renúncia dos prazeres e desejos individuais por outros mais conciliatórios com a coletividade.
O ser humano está aprisionado, porém, Freud não é um pessimista, deixou a psicanálise para ajudar o homem a conseguir formas mais conciliatórias com as restrições impostas pela civilização. Para citar um exemplo qualquer, o amante que experimenta os dissabores de um relacionamento não correspondido, não pode imputar danos à amada, agredí-la ou puní-la, se o fizer, isso terá um custo a ser pago, poderá sofrer as sanções da Lei. Mas esse sujeito pode encontrar na arte, na música ou na escrita, uma expressão satisfatória dos seus desejos reprimidos.
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Skinner e Freud
Written by adv on 30 de setembro de 2007 – 20:23 -Skinner e Freud sem dúvidas são os dois maiores ícones da Psicologia, o primeiro conhecido pela filosofia do Behaviorismo que sustenta a Análise Comportamental, e o segundo, o pai da Psicanálise.
Ambos defendem pressupostos teóricos bem antagônicos. Para Skinner, as causas do comportamento estão sempre no ambiente, aqui não existe mente nem qualquer entidade interna presente no indivíduo - nenhum apelo ao mentalismo se faz necessário para explicar o comportamento; já Freud, construiu sua teoria apoiada em conceitos mentalistas, aqui se faz presente o dinamismo psíquico das pulsões entre as instâncias mentais do indivíduo - consciente, pré-consciente, inconsciente - que irão determinar o comportamento.
É comum dentro da Psicologia, alunos e até mesmo professores, defendendo seus pontos de vista baseado em puro radicalismo. Buscam elementos de um que não tem no outro e criam em torno disso uma série de conflitos que de nada adiantam. Sinto pena desses “religiosos” do comportamento.
Particulamente vejo nestas abordagens, não escopos teóricos excludentes, mas sim, instrumentos que possibilitam estudar o comportamento. Uma tem a ensinar para a outra e ambas não dão conta de tudo, como nenhuma outra teoria. São representações e não verdades, assim como é o mundo que Schopenhauer descreveu. Sábio o psicólogo que vê em ambas, possibilidades de exercer o seu trabalho, ou ao menos, que não faça o papel de advogado do diabo.
A ilustração abaixo é apenas um modo de mostrar um pouco das diferenças entre esses dois pensadores que admiro muito.
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O Fetichismo da Mercadoria
Written by adv on 23 de setembro de 2007 – 22:51 -
Um amigo meu, certa vez em sala de aula, disse a seguinte frase: “necessidade é água, desejo é Coca-cola”. Achei brilhante o conteúdo, pois traz em tona, uma discussão complexa acerca do caráter sensual da mercadoria à luz da psicanálise e também, do materialismo histórico-dialético, concepção filosófica desenvolvida por Marx e Engels.
Inevitavelmente esse post será extenso, - mesmo assim será apenas uma pincelada sobre o assunto - mas tudo bem, esse blog não tem nenhum interesse de atrair massas e pouco se importa com leitor “pop”; pelo contrário, esse post se destina àquele leitor mais ambicioso, que desconfia do que a realidade aparenta ser. Também, pode ser que eu frustre suas expectativas, principalmente pelo que de início isso parecerá ser, mas não será. São apenas considerações para se resguardar daqueles que são cego-visuais, fãs do Pedro Bial.
Antes de iniciar, faz-se necessário apontar que, infelizmente, é comum o Marx ser visto como uma besta socialista, aquele diabo barbudo que escreveu “O Manifesto Comunista”. Sem dúvidas que aqui reside um conceito de pessoas que conhecem Marx porque ouviram falar na televisão ou porque ouviu algum estulto “Justus”, dizer que ele é o pai dos regimes autoritários. Tais premissas são infundadas, na medida em que não levam em consideração, toda construção filosófica que Marx desenvolveu para uma compreensão do indivíduo em sua totalidade bio-psíquica-social; no marxismo o ser humano é social, se relaciona, transforma e é transformado pelo meio e pela natureza.
Tais preconceitos apontados, talvez se respaldam, pela atribuição de regimes totalitários, classificados pela mídia como Socialismo e Comunismo; a extinta URSS, outros países já desintegrados da Europa Oriental e atualmente, Cuba. Experiências socialistas com muito mais contradições do que semelhanças com o socialismo que Marx anunciava enquanto pré-condição para se atingir um regime Comunista. Caíram as cortinas de ferro e ergueu-se um caldeirão de dogmas que espalha suas mentiras por toda parte: o PT é marxista; partidos de esquerda são marxistas; a ditadura é marxista (sic); autoritarismo e tortura são coisas de governos socialistas e comunistas; os socialistas querem apropriar do que você conseguiu com muito esforço; os comunistas incitam a violência; etc.
O Capitalismo é especialista em criar dogmas. Em defesa, acorrentados entre o tempo e a configuração econômica, o cego, livre para ver o sol, se agarra em conceitos de liberdade, igualdade e justiça. Liberdade de fechar um contrato e de fazer escolhas; igualdade, pois todos têm a mesma liberdade e se não tem é o próprio culpado. – Aqui, igualdade se mede em dinheiro e, justiça, significa o produto entre o dado e o recebido.
Definitivamente, esse texto, não se destina aos que classificam “O Capital” da mesma forma que o Diabo classificou a Bíblia. Esses estúpidos que, se antes soubessem o aporte teórico que Marx deixou para a compreensão do indivíduo em sua totalidade e que, jamais se constitui – como nada se constituirá - enquanto esgotamento compreensivo, não escreveriam estultices como o que se percebe no texto, - que por sinal muito mal redigido - escrito por um blogueiro “pop” da revista Veja. - (clique para ver a anedota)
Esse sujeito tem a proeza de dizer que “a área de humanidades no Brasil está tomada por esse lixo” (o materialismo histórico-dialético). – O Brasil é que está tomado de bípedes que vestem a carapuça do tio Sam, e conseguem, literalmente, abstrair lixo de seus pensamentos. Esses estúpidos, compradores de diplomas, são esterilizados de pensamentos e reflexões que antecedem suas ações, mas são dotados de incrível capacidade de reproduzir exatamente o que dizem os manuais técnicos. Essas bestas, cospem para cima e acreditam estar atingindo o próximo.
Schopenhauer nos chama atenção para esse tipo de “escritor”, dizia ele: “Uma grande quantidade de escritores ruins vive unicamente da estultice do público (os jornalistas) (…) são também alarmistas: este é o seu modo de se tornarem interessantes. No entanto, mediante tal expediente acabam por se igualar aos cãezinhos que, tão logo percebem algum movimento, põem-se a latir fortemente. Sendo assim, é preciso dar aos seus sinais de alerta apenas a atenção necessária para não prejudicar a própria digestão.” – Assim sendo, para não causar indigestão e antes que eu perca controle com as palavras atentando ainda mais contra a natureza de marionete do tal blogueiro pop, darei início, finalmente, ao que pretendo…
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Fale daquilo que você não consegue. Tente!
Written by adv on 6 de setembro de 2007 – 16:40 -Vi no MySpace de um amigo o seguinte trecho de algo escrito pelo Dráuzio Varela:
Emoções e sentimentos que são escondidos, reprimidos, acabam em doenças como: gastrite, úlcera, dores lombares, dor na coluna. Com o tempo a repressão dos sentimentos degenera até em câncer. Então vamos desabafar, confidenciar, partilhar nossa intimidade, nossos segredos, nossos pecados. O diálogo, a fala, a palavra, é um poderoso remédio e excelente terapia..
Ele está certo, deve ter se baseado na psicanálise para dizer isso. Freud começou sendo médico mas descobriu que as pessoas que não colocam seus sentimentos, desejos, sonhos e fantasias para fora, acabam ficando doente. Doente do psiquismo que por sua vez é quem comanda cada movimento dos músculos. Logo, o que é reprimido se transforma em sintomas, dos mais variados, da simples dor de cabeça a um câncer fatal.
Cada sofrimento que não tem dor física, seu organismo, ou melhor, sua “máquina de sobrevivência” (in Dawkins), tem que trabalhar em excesso para manter o metabolismo ideal, o que signifca que isso será descontado do tempo de vida.
Você pode se indagar, mas como assim dizer tudo o que penso? falar é fácil, difícil é falar! - Sim, é difícil, por vários motivos que dependem da sua história de vida e da cultura. Não foi atoa que Freud criou a associação livre como método fundamental da psicanálise, que consiste basicamente em permitir que o sujeito coloque para fora aquilo que foi censurado em algum momento, tendo em vista uma descarga de afeto adeqüada para o conteúdo recalcado (ab-reação).
Quanto maior a quantidade de afeto envolvida no comportamento, tanto mais embaraçoso, difícil ou conflituoso pode ser o diálogo. Mas não pense que você é anormal, saiba que a Cultura quem deveria estar no divã, não está. Mesmo que difícil, tente, saiba que psicanaliticamente falando, você é feito de sonhos, fantasias e desejos. O outro também. Saiba que, independente de classe social, e acima das particularidades e preferências determinadas pela Cultura, todos nós compartilhamos de um processo de seleção natural, o que determina em muitos pontos em comum, o nosso comportamento.
Tente! Será que vai ser tão pior do que ficar se lamentando daquilo que você tanto queria dizer e deixou escapar? Não importa se o objetivo foi ou não atingido, seu organismo agradece e te devolve em vida cada conteúdo que até então, você achava que devia morar no mundo dos “loucos”.
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