Liberdade e segurança: ser livre e estar conectado na internet

Written by adv on 19 de abril de 2008 – 22:58 -

A promoção da segurança sempre requer o sacrifício da liberdade, enquanto esta só pode ser ampliada à custa da segurança. Mas segurança sem liberdade eqüivale a escravidão (…); e a liberdade sem segurança eqüivale a estar perdido e abandonado (…) Essa circunstância provoca nos filósofos uma dor de cabeça sem cura conhecida. Ela também torna a vida em comum um conflito sem fim, pois a segurança sacrificada em nome da liberdade tende a ser a segurança dos outros; e a liberdade sacrificada em nome da segurança tende a ser a liberdade dos outros. – Zygmunt Bauman (Comunidade – A busca por segurança no mundo atual, 2001)

conectado internetQueremos liberdade e ao mesmo tempo estar seguros. Esse paradoxo do mundo contemporâneo está cada vez mais presente na sociedade. Não há segurança que não coloque no cárcere alguma parte da nossa liberdade.

Outro paradoxo tão presente nas relações contemporâneas é novamente a liberdade em contraposição com o estar conectado, seja na internet, na telefonia móvel, no rádio, na televisão e outros inúmeros meios modernos de comunicação. A liberdade implica em alguma parcela de solidão na medida em que os laços familiares e socioculturais são menos fortes que em outras épocas. O homem livre, com alguma freqüência está em solidão. A solidão é necessariamente um dos preços a se pago pela liberdade.

Na era digital queremos estar conectados, estar conectado é interagir, é estar junto de uma ou várias pessoas. Novamente, queremos ser livres, porém, estamos conectados, duas formas bem contraditórias que assumem importâncias significativas em nossas vidas.

Entramos em contato com o sujeito que nos é desconhecido facilmente através de muitos meios que a internet nos possibilita. Mas alguém ao andar pela praça aborda um desconhecido para dizer “olá, vamos conversar?”. – Será que não estaríamos invadindo a liberdade do outro? Estaríamos tomando o tempo do outro? Como disse acima, a liberdade, necessariamente, implica uma parcela de solidão.

Nunca houve tantos meios que possibilitasse a comunicação, entretanto, nem sempre o processo comunicativo ocorre de forma autêntica. A internet torna-se tão necessária para o vínculo porque precisamos interagir, alimentada ainda por uma solidão que se manifesta de várias maneiras na vida real, sobretudo, em suas formas inconscientes.

A dificuldade do relacionamento na vida real encontra na liberdade do outro a chance do sucesso ou o risco do fracasso. Ora porque o outro se esquiva impondo sua lógica, ora porque nós nos esquivamos e impomos nossa lógica.

Não é a minha intenção apontar a internet e os meios de comunicação contemporâneos como os vilões das nossas relações ilegítimas. Pelo contrário, essas novas possibilidades de comunicação são novos paradigmas que estão postos e que ainda precisamos caminhar muito para compreender a imensidão dos elementos culturais, sociais e subjetivos que estão sendo desencadeados na experiência do ser humano com o outro, sobretudo, com os outros no mundo virtual.

O conectar-se, o estar ligado com o outro, pode facilitar muito nosso processo de constituição subjetiva na medida em que nos relacionamos com um número amplo de pessoas e um vasto repertório de variações culturais e sociais. Mas nem por isso deve ser isentado de um olhar crítico, o sujeito pode estar conectado e ligado com várias pessoas no mundo virtual, ao mesmo tempo que se mostra incapaz de dizer um “obrigado”, um “bom dia” ou um gesto de compreensão ao próximo na vida real.


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Psicologia no ensino médio

Written by adv on 15 de abril de 2008 – 0:01 -

O POL (Psicologia Online), é um dos grandes portais que reúne conteúdos e debates em foco dentro da área da Psicologia. Um desses focos é um apelo para que a psicologia seja uma matéria no currículo do ensino médio. Um psicólogo dentro da escola pode contribuir para discutir temas que contribuem no sentido de permitir que o sujeito se liberte, em sentido amplo. – Psicólogos não curam, libertam.

Além de colocar temáticas em discussão, sua atividade deve servir enquanto intermediadora entre escola, sujeito e sociedade, tendo em vista à apropriação de um conhecimento que possa servir para o sujeito transformar sua realidade.

Mas, infelizmente, nem todos são assim. Alguns continuam presos na psicometria, culpabilizando o sujeito pelos seus próprios fracassos, lançando mão de perversos instrumentos que têm como meta transformar o sujeito em números.

A Psicologia enquanto matéria curricular não é a única necessidade; poderíamos citar também, a filosofia que há muito tempo vem sendo sucateada e algumas noções básicas sobre leis e códigos vigentes na legislação nacional que ficaria por conta da área de Direito.

De qualquer maneira o manifesto do POL está lançado, clique abaixo para conhecer as 8 razões apontadas para que a Psicologia faça parte do currículo do ensino médio, além da possibilidade de fazer seu apelo aos senadores e deputados, bastando para isso, indicar nome e email.

psicologia ensino medio


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Questões existenciais: pequeno diálogo

Written by adv on 19 de março de 2008 – 14:20 -

Daniele Geralda de Souza escreveu:
tenho duvidas sobre minha missão aqui, talvez tenha completada, acredito que com o espiritismo venha a saber mais.

Qual o sentido da vida? Temos uma missão? Há algum propósito reservado para nós? – Com certeza todos nós já nos perguntamos sobre essa questão que implica em várias respostas, depende da formação subjetiva de cada sujeito. Há tempo venho tentando escrever algo sobre o sentido da vida, a dificuldade reside justamente porque não há em primeira instância um sentido definido, não há resposta que satisfaça essa pergunta. Um dia dou um jeito de organizar algumas palavras e tentar dar uma “resposta sem resposta” para o sentido da vida.

Penso que perguntas como essas, entre tantas outras, tais como se Deus existe ou não, se há vida pós-morte, etc.; todos nós em algum momento já se perguntou, mas não vejo que elas nos ajudam avançar em alguma coisa. Entre todas as respostas possíveis uma parece ser a mais relevante quando levamos em consideração o bom senso: não há nenhuma resposta mas possui todas que você quiser.

Para apontar um caminho para a nossa querida páraquedista Daniele, usarei de Sartre, penso que não seria a resposta que ela gostaria, mas são palavras que ficarão jogadas por aqui para um dia desses fazer uma viagem existencial mais prolongada pelo sentido da vida.

Em Sartre o ser (homem) do nada vem, se constitui com outros humanos em um projeto humano, num constante movimento do vir-a-ser: “somos aquilo que ainda não somos”, pois, nunca estaremos completos. O ser não foi nem será, ele é, ele está acontecendo; passado, presente e futuro coexistem juntos, o que importa é o aqui-e-agora. Nosso projeto humano, isto é, nossa existência, jamais irá se concretizar pois a finitude dará fim ao ser que retornará ao nada. “Do nada viemos ao nada retornaremos”.


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O uso do computador pelos jovens, é preciso limites?

Written by adv on 9 de março de 2008 – 20:12 -

 

comentario

Comentário referente ao post intitulado “Vínculos afetivos, trabalho e vida no mundo globalizado

Realmente o preço da insatisfação do jovem é alto, além das suas colocações e argumentos têm as da mídia sem fundo educativo, dos grupos sociais e outras pessoas que, também, de alguma forma representam alguma liderança para a formação da identidade do jovem.

Adolescência ao mesmo tempo que tem seus encantos tem as dificuldades; a necessidade de ser ouvido e reconhecido, tão peculiar dessa fase da vida, muitas vezes é mais aceita pelo grupo na medida em que os integrantes são mais tolerantes e flexíveis entre si, gerando, na maioria das vezes, intensas contradições com as regras e necessidades da família, por mais bem estruturadas que elas sejam. Lidar com críticas e conflitos não é fácil para os adolescentes.

No que diz respeito ao mundo virtual, os computadores que hoje são usados em praticamente todas tarefas profissionais e a possibilidade cada vez mais fácil de tê-lo como um bem pessoal, ainda é uma situação recente; cheia de encantos e ao mesmo tempo armadilhas das quais estamos começando a reconhecê-las.

A mensagem transmitida por esse meio tecnológico, muitas vezes é a de que basta ter um computador com acesso à internet que estaremos, literalmente, inclusos em todas as áreas; que um mundo de possibilidades “fáceis” se abrirá ao nosso redor, sejam elas materiais ou afetivas. Essa idéia levada ao extremo pode significar uma série de problemas, tanto para jovens como para adultos.

A tão aclamada “era digital” é um paradoxo, ao mesmo tempo que nos trouxe inúmeros benefícios, também, nos exige muito mais capacidade de processamento e compreensão da informação. A vida profissional tornou-se muito mais competitiva; competimos com máquinas, robôs e humanos.

Cotidianamente somos obrigados a lidar com um número de informações muito grande; não damos conta pois somos humanos e a nossa evolução biológica requer muito mais tempo do que as mudanças ocorridas no contexto da globalização. Como uma das conseqüências, muitas vezes somos visitados pelo tédio, pela apatia e um sentimento de “vazio” que não sabemos definir.

A dificuldade da Maria de Lourdes certamente também é compartilhada por muitas outras mães preocupadas com o excesso de tempo de seus filhos frente ao computador. Não que todas essas horas signifiquem tempo perdido, mas, tudo que é em excesso é prejudicial, pois, não há apenas um item que irá satisfazer nossas necessidades para que delimitamos nossas ações e pensamentos apenas a ele.

Sra. Maria de Lourdes, penso que esteja no caminho correto. Impôr limites em tom argumentativo e acolhedor, evitar o “tom competitivo” do diálogo e ao mesmo tempo se mostrar aberta a aprender com o seu filho e permitir que ele possa expressar suas dificuldades e pontos de vistas sem se sentir ameaçado por uma possível punição são algumas das possibilidades válidas.

Estabelecer bases de confiança para que um adolescente se sinta acolhido em suas dificuldades, que são muitas – as necessidades da sexualidade, o desejo de se expressar e ser ouvido, as pressões advindas da escolha profissional, o medo do fracasso e da rejeição, etc. -, são fundamentais para atingir os objetivos. Do contrário, o grupo social (da escola, da vizinhança, etc.) poderá se apresentar mais acolhedor do que a base familiar, o que pode significar muitos problemas à vista.

As suas discordâncias também são fundamentais nesse processo, mas com o cuidado de não torná-las ofensivas ou nas justificativas vazias do “porque sim”, “porque não”, “porque assim é melhor”, “porque não pode”, etc. Assim como os adultos, adolescentes e crianças exigem mais. Procure discordar em tom de respeito e apresentando bons argumentos para isso, incite-o a pensar e refletir sobre.

As punições podem ser úteis, mas exigem um rigoroso cuidado. A idéia de muitos dos nossos avós de que educação se faz com “boas surras” não pode ser levada a sério; a dinâmica da vida atual não é a de antigamente e agressividade pode gerar mais agressividade.

Espero que essas breves palavras sirvam para clarificar alguma coisa; mas elas por si só não substituem o contato mais próximo com um profissional adeqüado.


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Vínculos afetivos, trabalho e vida no mundo globalizado

Written by adv on 28 de fevereiro de 2008 – 20:25 -

(…) a vida líquido-moderna é uma recitação diária da transitoriedade universal. Nada no mundo se destina a permanecer, muito menos para sempre. Os objetos úteis e indispensáveis de hoje são, com pouquíssimas exceções, o refugo do amanhã. Nada é necessário de fato, nada é insubstituível. Tudo nasce com a marca da morte iminente, tudo deixa a linha de produção com um “prazo de validade” afixado. – Zygmunt Bauman

salvador dali

O número de vítimas que a globalização faz a cada dia é avassalador. Este processo não é recente, Marx já antevia em sua célebre frase: “Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar.” Embora não seja recente, a velocidade com que ocorre atualmente e os “desmanches” que deixa por onde passa são em ritmo frenético.

Se por um lado cresce o mundo simulado dos tempos modernos, do consumo em excesso, das facilidades dos serviços e o mundo paradisíaco que as tecnologias oferecem, por outro a tácita face desse processo destitui da vida social quem não consegue acompanhar a velocidade da mudança.

Uma série de elementos fazem o leque de perda dos chamados, literalmente, “perdedores” no jogo do capital. Perdem o emprego, o prato de comida, o teto, a família, a dignidade e outros marcos de sustentação da vida social.

Tidos como os próprios culpados por não terem encontrado o estreito e difícil caminho ao paraíso, os excluídos têm agora ao redor uma infinidade de caminhos, mas todos eles levam ao inferno. Quem conseguiu pegar o bonde da globalização luta para não ser expulso do trem que parte em alta velocidade, os que já caíram dificilmente voltarão a pegar carona, estão mais próximos de se afundarem cada vez mais.

Porém, a globalização não implica apenas em mudanças da movimentação do passaporte de troca de bens e serviços – o dinheiro. Os seres humanos também têm que se adequarem às personalidades mercadológicas exigidas pelas mudanças.

As quitandas de esquina já não fazem parte da paisagem urbana e do círculo de amizades do bairro. Foram engolidas pelos grandes hipermercados que fazem o encantamento do desejo do “estar incluído”. Onde quer que haja possibilidade de vínculos afetivos a globalização passa e esteriliza, deixando um cenário com regras de sobrevivência aos mais fortes em quantidade de escrúpulos. Quanto mais escrupuloso melhor. Quanto menos pensar na existência, nas emoções e conseqüências das ações, melhor. O que importa é o “aqui-e-agora” quantificado no dinheiro.

Os encontros de praça já foram incinerados no forno do obsoleto. Agora são feitos através do mundo virtual, encobertos no simulacro da imagem digitalizada que serve como uma embalagem para definir se o encontro poderá a vir ocorrer na vida real. Se vier a ocorrer a embalagem pode não vir reproduzida à maneira idêntica do digital e o conteúdo tende a ser descartado antes mesmo de verificado.

Vivemos em multidão, porém, sozinhos. Aglomerados de casas com portões e muros que ocultam cada vestígio da existência de vida humana. As ruas estão repletas de seres humanos desconhecidos, quando muito os conhecidos recebem um breve cumprimento em distância, o que já é o bastante. – A multidão que vivemos é eminentemente estruturada em regras mecânicas de etiquetas sociais. Com base em estímulos e respostas de convivência social que nos mantém em certa distância da qual nos sentimos seguros, pois, a confiança não resiste ao modo de vida dos negócios e do dinheiro.

Paira no ar um sentimento de desconfiança universal. Nossos vínculos são negociáveis como mercadorias. Para que facilitar a sedimentação de vínculos duradouros se posso cair em uma armadilha, ser usado e depois descartado tal como fazemos com as mercadorias?

O que você quer de mim? O que você tem para me oferecer? Quais são as provas de verdade que você pode colocar na mesa? – Há inúmeras perguntas que nos mantém afastados. Insegurança e desconfiança são as únicas respostas que temos para oferecer um ao outro.

Todos nossos vínculos tendem a ser baseados em contratos que colocam uma condição no caso da dissolução. O casamento é realizado aos beijos e alegrias do casal, mas em oculto fica um contrato que dispõe sobre o quantificável em dinheiro caso amanhã os beijos virem tapas.

Os namorados fazem e refazem o contrato verbalmente de acordo com o devir. As fronteiras que definem até um ou outro pode ir são demarcadas nas relações de troca baseadas no fazer para receber.

As amizades são feitas na mesa do bar através dos contos que quantificam as conquistas e as perdas. – Essas últimas só são contadas se servirem para ilustrar um ganho através da perda.

Os contratos de empregos podem ser feitos hoje, mas desfeitos amanhã para ocupação de alguém mais “habilidoso”, que é aquele que produz mais e aceita ganhar menos. Do contrário surge uma nova tecnologia que destitui o sujeito que parou para o descanso noturno.

Nossos cérebros estão demasiadamente defasados em relação à velocidade do progresso. Guardamos o nome da rua, de alguns familiares e outros conceitos que precisamos na vida profissional. O que vai além está entregue às memórias eletrônicas que guardam todo sentimento de que estamos vivendo a era da informação, onde não é preciso fazer mais esforço além do sentar e girar o mundo através dos “clicks”.

Vida é trabalho e trabalho é vida. Não são duas coisas diferentes, é um processo único. As horas de descanso não significam que são horas livres do trabalho. O trabalho não termina ao turno das 8 horas diárias, o trabalho impregna o modo de ser, de pensar e de agir; o ambiente enclausurado das obrigações, cumprimentos e metas acompanham os pensamentos e anseios após o término do expediente. – O processo de adoecimento pelo trabalho é uma constante, exigir de alguém o esquecimento do trabalho é como exigir-lhe a morte.

Corremos atrás de títulos, certificados e diplomas com a idéia de garantir um bom pedaço da riqueza produzida, garantir uma vida digna, confortável e segura. Mas os desejos parecem ser eternamente adiados, os esforços de um profissional por mais renomado que seja, quando muito dá a garantia de um descanso cômodo para poder olhar outros detalhes da vida que nunca puderam ser vistos devido ao tempo dos negócios.

Fazer do trabalho uma fonte de prazer é algo para poucos, exige muito mais do que o dinheiro em abundância. Do contrário o tempo de vida pode não acompanhar a velocidade dos sonhos.

Para onde corremos tanto? Para a vida ou para a morte?

*Imagem: Explosão – Salvador Dali (1954)
*Vidas desperdiçadas – Zygmunt Bauman (1995)


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