Archive for the ‘Psicologia’ Category
Amor à primeira vista existe?
Written by adv on 23 de fevereiro de 2008 – 17:59 -Vamos falar de amor? - parte 1 | parte 2 | parte 3
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo. (Fernando Pessoa)
Prólogo:
De repente, quando menos esperamos, nossos olhares são atraídos para alguém que nunca tínhamos visto antes, mas pensamos que aquela pessoa não nos parece estranha. Nessa situação experimentamos os batimentos cardíacos se acelerarem, alguns suam frio, experimentam o rubor e até perdem as palavras. Nesse momento gostaríamos que o tempo parasse para que pudéssemos fitar com um olhar mais demorado cada detalhe que está balançando o nosso coração.
Ahhh… o amor à primeira vista. Será?
Agostinho, ou se preferir, Santo Agostinho, em Confissões (397-398) dizia: Antes que te conhecesse eu já te amava. - Agostinho estaria errado?
Tomando como ponto de partida um pouco do pensamento de Freud, Agostinho estava correto! Ao nascer a criança tem os pais ou quem fica a maior parte do tempo dispensando cuidados, como principais modelos de vínculos.
Aprendemos desde a infância as nuances de um rosto agradável ou não. Um gesto de aprovação ou repreensão. No Complexo de Édipo, literalmente, “apaixonamos”por um dos nossos pais - o do sexo oposto -, até que, com o defescho, estamos prontos a desbravar o mundo desconhecido. Temos uma vida pela frente, experimentando novas relações vinculares, nos deparando com aprovações e desaprovações, convivendo com pessoas diferentes e outras com alguns aspectos semelhantes.
Construímos nossa identidade através das relações. Dependemos do outro para nos tornar humano. Podemos nos achar o mais diferente possível dos seres humanos, mas nossas diferenças não são construídas no vazio, todas passam pela experiência dos vínculos. Mas é lá na infância que nos apaixonamos pela pessoa que um dia iremos conhecer.
Internalizamos dos nossos pais a maioria dos traços físicos e psicológicos que definimos como agradáveis, por mais que sejam sutis e nos pareçam ocultos, além, de carregarmos uma boa dose de herança genética das quais os etólogos definem como universais para as escolhas de parceiros sexuais.
Nesse sentido é que definimos quem pode nos agradar ou não. A maioria das pessoas já experimentaram uma sensação de não aceitação de uma determinada pessoa mesmo antes de conhecê-la, todos nós um dia já julgamos e fomos julgados por um simples olhar, e ainda fazemos isso. Felizmente, a educação e o conhecimento tem permitido superar as barreiras dos preconceitos primitivos que, se um dia foi útil para o homem que vivia em tribos reconhecer e dispensar energia apenas aos membros do seu grupo, hoje essa atitude já nos é nociva.
Mas “O que amamos quando amamos alguém?“, essa é a pergunta que Agostinho faz. - A resposta é frustrante e poderia colocar o fim em um romance se um dos pares responder à luz da psicanálise. Quando amamos, amamos nós mesmos refletido no outro.
Amamos nossos desejos e sonhos que depositamos na pessoa amada que serve como um espelho para, indiretamente, amar a mim mesmo. Rubem Alves aponta que a pergunta não tem resposta nem solução, pois “quer dizer que eu estou amando você por equívoco, já que você é apenas o espelho onde uma outra coisa aparece. O que eu amo na realidade é essa outra coisa. Você, eu amo indiretamente.”
Daí em parte, a fragilidade dos nossos relacionamentos. Se os pares não tiverem consciência de ver o outro como um humano incapaz de ser onipresente e onisciente ao que gostaria de “ver” refletido, o espelho pode partir. Estamos em constantes mudanças, nossos sonhos e desejos podem mudar e de repente o outro já não espelha o que gostaríamos.
Sei que o leitor que está vivenciando um caso de amor pode estar me mandando para o submundo do inferno, mas por enquanto, em singelas palavras Rubem Alves diz que “Os namorados têm que se acostumar com isso.”
Imagem: Narciso - Michelangelo Caravaggio (1594-1596)
[Continua...]
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Sexualidade e estética: um século assombrado pelo espelho
Written by adv on 20 de fevereiro de 2008 – 23:48 -Freud descobriu que a repressão sexual era responsável por grande parte dos problemas psicológicos enfrentados pelas pessoas. Isso no século XIX, mas e agora que o sexo chega a ser assunto banalizado, continuamos a sofrer por repressão sexual?
Vou deixar que cada um busque no íntimo uma resposta para tal questão, entretanto, Freud alertou que para todo sofrimento psíquico há uma causa sexual, por mais oculta que esteja.
Os conteúdos que apresentamos sobre sexo têm nos ajudado? - Essa é a pergunta que me parece ser mais oportuna frente ao crescente número de “gurus” que se autodenominam terapeutas sexuais e prometem a cura de toda apatia sexual.
Astrólogos, tarólogos, personagens de televisão, remédios populares, ditados chineses e populares, revistas de modas… Existe uma infinidade de coisas que se voltam para a saciação da sexualidade humana.
Os gurus estão todos prontos para emitir uma nova regra sexual; um novo comportamento que vai agradar o seu parceiro(a); etiquetas que prometem dominar, literalmente, o seu amor; e é claro, inúmeros derivados de ditos, crenças populares e os mais absurdos “compostos” que prometem curar a impotência sexual.
O infeliz que acata tais informações como diretrizes para sua vida sexual acaba ficando com o bem estar psíquico comprometido, quando não muito, compromete também as funções fisiológicas. Assim, acaba causando problemas a si mesmo e a quem estiver por perto, afinal, um ato sexual satisfatório pode ser considerado o motor pulsante da vida.
Sem saber o que fazer, envergonhado de si próprio e dominado por uma sensação de excluído daquela sexualidade vendida pela mídia, esse público encontra orientação com os gurus da MTV, com as receitas vendidas nas revistas ou pelas palavras do “especialista” em sexualidade humana que consulta o que as cartas e o posicionamento dos astros reservam a você, etc. Uma busca interminável que sempre deixa o tão sonhado prazer em aberto: essa dica não funcionou, mas um dia irei encontrar uma que funcione!
Quem não consegue acompanhar as novidades da vitrine montada pelos gurus sexuais acaba sofrendo com a própria imagem refletida no espelho. Não por incapacidade própria, mas por criar uma realidade a partir do irreal.
É comum e triste ver garotas jovens passando horas a se lamentar com a própria estética, que vai desde os traços físicos corporais até os apetrechos da moda. O mesmo tende a ocorrer com os garotos que, se antes não sofriam desse mal, talvez por uma cultura machista que sempre apontou como uma obrigação da mulher estar “em dia” com o espelho, agora já estão chegando à igualdade. Mulheres cobram homens e vice-versa.
Ambos arquitetam seus ideais de identidade na imagem digitalizada do modelo. Mas o virtual é pixerizado, tons de cores e disposições espaciais são intencionalmente colocados em perfeita harmonia mascarando o real. Quando o sujeito se depara com as contradições da realidade nada poderá restar além do que imergir na decepção.
Esse texto é breve e ínfimo diante da grandeza da discussão que poderia ser feita acerca da construção dos nossos ideais estéticos e, principalmente, sobre a sexualidade. Mas diante desse breve contexto, encontro a pergunta: quem sofre mais, quem na repressão conviveu com o sexo como sendo coisa demoníaca ou quem agora sofre por excesso de informações sem fundamentação?
*Imagem: O fruto proibido (1509) - Michelangelo
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Vamos falar de amor? - parte 2
Written by adv on 21 de janeiro de 2008 – 11:59 -Em busca de uma definição para o amor
“Há o calor do Amor, o rubor pulsante do Anseio, o sussuro do amante, irresistível - magia para enlouquecer o mais são dos homens” - Homero, A Ilíada
O amor romântico é um sentimento universal. Em todas as culturas o encontramos expressado na música, na arte, nos costumes, na literatura, nos sentimentos e pensamentos de homens e mulheres.
Os etólogos dizem que esse sentimento provavelmente tenha evoluido por dois motivos essenciais: 1) para proteger os homens de serem traídos e criarem o filho do outro e, 2) para proteger as mulheres de perderem para uma rival um marido em potencial para criar os filhos.
A antropóloga americana Helen Fischer, a partir de estudos com humanos apaixonados, percebeu o aumento dos níveis de três neurotransmissores no cérebro: dopamina, norepinefrina e a serotonina. Amnbos estão ligados ao sistema de recompensas do cérebro. Por outro lado, em sujeitos que estão presenciando um momento de desilusão amorosa, as pesquisas mostraram baixos níveis dessas substâncias.
Os neurocientistas estabeleceram ainda, um tempo de duração da “magia do amor”, normalmente entre 12 e 18 meses, entretanto, esse período não deve ser levado ao extremo, uma vez que, sendo o amor instável, volátil e inconstante, ele pode se extingüir, voltar e depois desaparecer novamente, variando significativamente de acordo com as características envolvidas.
Embora seja possível através de estudos verificar as alterações físicas e orgânicas que o amor romântico ou a desilusão causada podem gerar, os grandes mistérios ficam “encobertos” aos aparelhos técnicos. Sendo o amante uma marionete controlada pelas cordas do coração da amada. Com freqüência, homens e mulheres apaixonados, ensejam muitos novos comportamentos, estilos de vida e crenças na expectativa de agradar os amados.
Como ponto de partida tomamos o amor romântico como uma experiência humana universal; um sentimento volátil e às vezes incontrolável, um torpor mental que pode trazer alegria num momento e desespero no outro.
Imagem: Love Is… by =trinity-77
Continua…
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Vamos falar de amor? - parte 1
Written by adv on 17 de janeiro de 2008 – 20:18 -O amor assume inúmeros significados e expressões ao longo da história da humanidade. Para Freud o amor está presente em toda motivação humana; para Nietzsche o amor se faz no “eterno retorno“, todo prazer retorna à dor; para Shakespeare todo amor termina em tragédia; para Chaplin o amor é uma das mais belas frustrações… Você deve conhecer pelo menos uma definição de amor que, seja na voz do poeta ou do filósofo, é retratado nos duelos do amor e do ódio, gladiadores que coexistem de mãos dadas, restando à indiferença o oposto do amor.
Quem nunca se apaixonou ainda irá. Quem já se apaixonou já sentiu dor e desespero que pareciam infindáveis. Outros ainda estão felizes, mas o amanhã é o eterno retorno. Alguns se rebelam contra o amor, revelam o ódio sem saber que este é amor em estado mais intenso. Ainda, tem os que acham que não sofrerão novamente por amor… até o próximo encantamento. Amor que pode expressar alegria e tristeza, dor e prazer, bem e mal, vida e morte. Seja na arte, na música, na literatura, na dança, etc.
O amor é assunto oculto na sociedade das massas apressadas e vazias. No mundo líquido* nossas relações podem ser medidas em poucos dias, quando não muito em horas. Nos divertimos, saímos com amigos eufóricos e barulhentos, bebemos e freqüentamos festas, nos apresentamos sorridentes e felizes, as vezes saímos à dois, e não muito difícil, na cama dos desejos, uma irrealidade e um sentimento de vazio se instalam. A vida líquida escorre em sentimentos fantasmagóricos, mas entre a apatia e a satisfação acabamos por esquecer, dormimos, amanhã é um novo dia, o eterno retorno.
Mas se o amor pode tornar-se dor será que devo evitá-lo? Só podemos ser felizes se encontrarmos a outra “cara-metade”? Como se recuperar de um amor não correspondido? Amor incondicional existe? - Não irei responder, mas é sobre isso que pretendo falar… Por quê?
Penso que temos muita magia, poesia e encantamento para tratar o assunto, mas poucas tentativas foram feitas no sentido de levar o assunto à sério. Tentamos passar nossos pensamentos, imagens e sentimentos em forma de palavras mas não temos palavras para isso, apenas realizamos uma falsificação da realidade.
Por outro lado, na história são inúmeros os casos de homicídios e suicídios tendo como cenário o amor romântico. Atualmente também é comum as práticas de assassinatos, suicídios, seqüestros, agressões físicas graves entre outras formas desequilibradas de homens e mulheres expressarem dor e egoísmo gerados pelo amor não correspondido. Mudam os cenários, os personagens e o enredo, mas as tragédias shakesperiana permacerão ao longo dos séculos. - Penso que devemos levar mais à sério o amor romântico, do contrário, estaremos contribuindo para a formação de seres humanos neuróticos além do natural.
Continua…
*Conceito de Zygmunt Bauman
Imagem by Gabatinie
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Vida e morte - você já parou para pensar na sua despedida?
Written by adv on 22 de dezembro de 2007 – 14:12 -
Que seja assim — a marcha do mundo é tal;/ Que me aconteça como a tantos outros./ Eles partem, seu bote se despedaça,/ E ninguém pode mostrar o ponto do sumiço./ Adeus, adeus! O sino do barco chama,/ E como demoro, o barqueiro me apressa./ E agora, ousado, parto através de vagas, tempestades e recifes!/ Adeus! Adeus!…
(Nietzsche, 1844 - 1900)
Qual o seu pensamento sobre a morte? - Essa pergunta implica em respostas divergentes quando não muito raro um silêncio profundo.
Entre as várias respostas, talvez, podemos destacar um ponto em comum: refletir sobre a morte dos outros e, principalmente, a nossa, é algo que gera angústias, portanto, devemos silenciar sobre o assunto. Morte que para uns é fim, para outros é início. Do mais cético ao mais religioso, todos nós em algum momento já sentimos os calafrios da finitude.
Os religiosos crêem que após a morte terão seu destino sentenciado ao inferno ou aos céus; outros acreditam que voltaram novamente para Terra encarnado em um outro personagem que vai variar de acordo com os seus feitos na vida; outros ainda, pensam que morreram e já estão encarnados em outra pessoa. Os ateus vêem a morte enquanto um retorno as cadeias de carbono na Natureza - este é o meu pensamento. Os céticos preferem não opinar… - Fato é que se perguntarmos quem quer ser o próximo a deixar essa vida, por mais conflituosa que seja, todos querem ser os últimos da fila, evidenciando, o que Freud dizia ser uma das fontes de sofrimento do homem: a dissolução e destruição do corpo, da vida.
É fácil verificar que todos nós achamos que seremos os últimos. Cremos que a fatalidade nunca estará onde estivermos. Admitimos que vamos morrer, mas de uma forma que não iremos saber. Um dos meus textos escritos com a finalidade de apresentação na disciplina Psicologia da Morte, logo nos primórdios do meu curso, esbravejei contra a nossa ousadia de falar sobre o tema. - Eu estava errado.
Hoje, penso que aprender a viver com os mortos nos ensina a viver com os vivos e, que para aprender a viver com os mortos é necessário aprender a viver no mundo dos vivos.
Nos meus 8 ou 9 anos de idade, minha primeira experiência com a morte não passou de um relato verbal dos meus pais avisando sobre uma tia que fora vítima de câncer. Quase não tínhamos contato, ela era de outra cidade. Logo depois, perdi meu coelho de estimação, o que me levou a longos meses de tristeza.
Nesse processo de luto, me culpei a todo instante achando que não havia dado o melhor para o "orelhudo", além de blasfemar contra o Deus onipotente e onipresente que eu acreditava na época. O Deus cruel do mundo cristão. Por que ele permitiu essa tragédia?
Aprendi três coisas com a morte da minha tia e do meu coelho, que viria a descobrir mais tarde no mundo acadêmico, como sendo três dos principais elementos presentes no processo de luto: quando perdemos alguém o sentimento de culpa pode nos acompanhar para o resto da vida; a morte adquire significados de acordo com os nossos vínculos com o objeto da perda, a morte de um filho, de um dos cônjuge e de um amigo, tende a ser as mais dolorosas além de destruir a nossa ilusão de invulnerabilidade - nos deparamos com a morte de inúmeras pessoas nos noticiários, mas não nos causa sofrimento, quando muito espanto pela forma como foi a fatalidade. E por fim, os enlutados irão encontrar alguma forma de praguejar contra a injustiça, na maioria dos casos, Deus ou o destino.
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