Deus, religião e o sentimento religioso em Freud

Written by adv on 11 de novembro de 2007 – 15:05 -

Há muito tempo atrás, ele [o homem] formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. - Freud (1929)

A religiosidade perpassa ao longo do processo de desenvolvimento das civilizações. Todas as religiões passam por diversas fases e conflitos, nem todas as perguntas têm em si as respostas imediatas, entretanto, tais idéias são difundidas pela civilização como um bem precioso.

Suas idéias são altamente valorizadas ao longo do tempo enquanto condição para o mais alto grau do bem-estar. A “Palavra de Deus” carrega em si, para o religioso, as condições para a conquista de riquezas, dos proventos, da cura para as doenças e os males, dentre outros desejos que a civilização não pode satisfazer.

A explicação que Freud dá ao sentimento religioso decorre do desamparo na qual o indivíduo é dotado ao nascer em um mundo que lhe parece estranho, hostil e cheio de enigmas, da existência à própria morte. O desamparo infantil decorre dos conflitos e dúvidas quanto as garantias sobre o existir e o futuro. Em Freud, tal desamparo também é o motor da civilização, uma vez que esta nasce na tentativa de diminuir o desamparo do homem diante das forças da natureza, dos enigmas da vida e da própria morte.

Decorre daí que o indivíduo tem um sentimento quanto à proteção, uma necessidade de um pai protetor que lhe trará um apazigüamento do temor, buscando indicar as soluções para dominar o desconhecido. A esse sentimento que estaria ligado à gênese do ideal de Eu, Freud denominou de “sentimento oceânico”, isto é, a relação do ser humano com um ser infinito, absoluto e abstrato. Outra discussão se faz necessária para explicar o sentimento religioso em Freud, a questão da civilização.

A análise de Freud para a questão da humanidade é de longe um quadro do terror. Porém, é no meio dessas trevas que Freud estabelece as bases para explicar os conflitos humanos, o sofrimento psicológico e a constituição do indivíduo. Em Freud a vida é sofrimento e viver é sofrer, tal como em Schopenhauer.

Ela nos proporciona muitas decepções e tarefas difíceis de suportá-la. Há 3 maneiras principais de experimentar o sofrimento: o advindo da decadência do nosso próprio corpo condenado à dissolução (morte); do mundo externo quando entramos em conflitos (imposições e regras culturais) e o último, advindo do nosso relacionamento com o outro. Relacionamento é desgastoso a qualquer um, traz uma série de conflitos e dissabores, no entanto, é uma faca de dois gumes, pois também é através dos relacionamentos que constituimos nossa subjetividade.

Apresentado o propósito da vida, a busca do prazer em detrimento do desprazer, verifica-se que o programa do princípio do prazer está em desacordo com o mundo, tanto quanto ao macrocosmo como o microcosmo. A cultura é a grande vilã e a vida em sociedade só é possível com o estabelecimento de regras, o que necessariamente causará confrontos com os desejos individuais.

As possibilidades de felicidade já são condenadas pela nossa própria constituição. Ela é restrita e sua manifestação é passageira. A felicidade intensa e prolongada não existe em Freud, nos comportamos de modo que só podemos experimentar prazer intenso em contraste: amor - indiferença; alegria - tristeza; gostar - odiar, etc.

O ceticismo é fundamental na psicanálise freudiana. Coloca-se um dilema, de um lado reconhece que o estado anterior à civilização é ruim por conduzir à barbárie (lei do mais forte); de outro, a civilização nos cobra um preço elevado para tornar viável a vida em sociedade, este preço é a renúncia dos prazeres e desejos individuais por outros mais conciliatórios com a coletividade.

O ser humano está aprisionado, porém, Freud não é um pessimista, deixou a psicanálise para ajudar o homem a conseguir formas mais conciliatórias com as restrições impostas pela civilização. Para citar um exemplo qualquer, o amante que experimenta os dissabores de um relacionamento não correspondido, não pode imputar danos à amada, agredí-la ou puní-la, se o fizer, isso terá um custo a ser pago, poderá sofrer as sanções da Lei. Mas esse sujeito pode encontrar na arte, na música ou na escrita, uma expressão satisfatória dos seus desejos reprimidos.

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O sentido em comunicação

Written by adv on 2 de novembro de 2007 – 22:54 -

Um mantém sua opinião, porque imagina que chegou a ela por si mesmo, o outro porque a aprendeu com dificuldade e está orgulhoso por ter conseguido compreendê-la: ambos, em decorrência, por vaidade. - Nietzsche

No mundo corporativista, dos negócios, das instituições e dos meios de comunicação de massas a comunicação está sendo (re)inventada enquanto mais um fetiche do capital que reluz a banalização. No dia-a-dia pipocam panfletos de cursos que prometem a conquista do mundo através da boa comunicação. Muita gente busca por receitas milagrosas de como dominar o público pela fala, como ganhar um debate, como falar em público, como se comunicar em uma entrevista para emprego, etc.

Nesse tipo de discurso a comunicação ganha atributos quase que “mágicos”, como se ostentasse por si só, a chave que separa o sucesso do insucesso. Na chamada “Era da informação”, a comunicação está posta enquanto uma habilidade para poucos, e não como elemento da essência humana que possibilitou a organização da vida em sociedade, é vista ainda, como algo estritamente técnico, asséptico de sentidos e significados que perpassam ao longo das relações humanas entre as gerações.

De fato, uma boa comunicação tem muitas vantagens. Não pretendo negá-las, o que pretendo apontar é que comunicação é um processo, se faz na dialética do homem com a sociedade, das relações intersubjetivas e objetivas dos indivíduos com o momento histórico. A boa comunicação não é algo que se domina do dia para noite, em cursos de alguns meses e muito menos em manuais técnicos, ela é mais uma utopia a ser alcançada do que um ponto de chegada.

Não pretendo definir o que é comunicação. Este tema é fronteira entre várias ciências, a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia, a Lingüística, a Filosofia… entre outras áreas. Só na Psicologia há inúmeros modos de se pensar sobre o tema.

Entre uma infinidade de aspectos que podem ser trazidos sobre o assunto, tanto técnicos como filosóficos, apontarei brevemente, um dos que acho mais importantes. É simples, mas cotidianamente atropelamos na nossa interação com o outro. Estou falando do sentido em comunicação.

Ao comunicar realizamos objetivos com a intenção de influenciar o ambiente e a nós mesmos. Usamos a linguagem para exprimir e obter sentidos. Os códigos escolhidos para a comunicação e a linguagem que usamos para codificar nossas intenções e decodificar as mensagens que recebemos estão ligados com o sentido que lhes atribuímos.

A tese central desse conceito para comunicação é que os sentidos não estão nas mensagens e o significado não é coisa que se possa descobrir. As palavras não querem dizer coisa alguma, pois os significados estão nas pessoas. São significações pessoais decorrentes do nosso relacionamento com o meio onde vivemos. No nosso relacionamento com o mundo estamos constantemente criando, alterando e eliminando significados.

Nesse sentido, o processo comunicativo só se dá em grau de similaridades dos significados entre os comunicantes. Na medida em que há divergências entre os significados, o processo comunicativo se torna difícil, chegando ao ponto de não ocorrer.

Em todo processo comunicativo, também está implícito o que não é dito, imagine a cena:

Sujeito A pisa no pé de B.
Sujeito B diz: “Você está pisando no meu pé”.

Nesse caso, é óbvio que esperamos que o sujeito A não responda algo como “tem razão, interessante, estou pisando em seu pé”. Está implícito na mensagem de B algo como “tire o seu pé daí”. Embora seja um exemplo que parece claro, é válido para refletirmos que muitas confusões ocorrem quando não percebemos conteúdos implícitos ou omissos, que podem vir carregados com a mensagem.

Grande parte dos problemas de relacionamento humano ocorrem devido às divergências de sentidos e significados entre as mensagens. Todos nós tendemos a uma interpretação egocêntrica do mundo, o que certamente dificulta a empatia e a interação, fundamentais no processo comunicativo. Desse modo, a apropriação da cultura e da educação se tornam fundamentais para que os indivíduos possam organizar a vida social com um mínimo de teor conflitivo.

Os termos mais abstratos tendem a causar as maiores confusões. A palavra “cadeira” dentro de uma comunidade verbal tende a ser compreendida pois quase todos nós já vimos uma cadeira, independente de qual for. Mas quando falamos de sentimentos (agonia, angústias, felicidades, …) entre outros termos mentalistas, surgem grandes impasses, uma vez que tais significados estão ligados às nossas idiossincrasias.

Alegria para mim é diferente do que é alegria para você e vice-versa, mesmo que tenhamos alguns pontos em comuns, nunca estaremos falando exatamente da mesma coisa. Pense nisso… quantas discussões se iniciam quando queremos que o outro entenda exatamente o que pretendemos dizer? Quando culpamos o outro por não nos entender é bem mais provável que somos os próprios culpados, por não conseguirmos aproximar o nosso sentido ao do outro.

Nesse contexto, o dicionário não é o oráculo da comunicação. Ele é meramente um instrumento técnico que pode nos servir enquanto ponto de partida para nos guiar entre os sentidos mais comuns atribuídos às palavras por uma determinada sociedade em um dado momento histórico, e necessariamente, está carregado de ideologias.


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Skinner e Freud

Written by adv on 30 de setembro de 2007 – 20:23 -

Skinner e Freud sem dúvidas são os dois maiores ícones da Psicologia, o primeiro conhecido pela filosofia do Behaviorismo que sustenta a Análise Comportamental, e o segundo, o pai da Psicanálise.

Ambos defendem pressupostos teóricos bem antagônicos. Para Skinner, as causas do comportamento estão sempre no ambiente, aqui não existe mente nem qualquer entidade interna presente no indivíduo - nenhum apelo ao mentalismo se faz necessário para explicar o comportamento; já Freud, construiu sua teoria apoiada em conceitos mentalistas, aqui se faz presente o dinamismo psíquico das pulsões entre as instâncias mentais do indivíduo - consciente, pré-consciente, inconsciente - que irão determinar o comportamento.

É comum dentro da Psicologia, alunos e até mesmo professores, defendendo seus pontos de vista baseado em puro radicalismo. Buscam elementos de um que não tem no outro e criam em torno disso uma série de conflitos que de nada adiantam. Sinto pena desses “religiosos” do comportamento.

Particulamente vejo nestas abordagens, não escopos teóricos excludentes, mas sim, instrumentos que possibilitam estudar o comportamento. Uma tem a ensinar para a outra e ambas não dão conta de tudo, como nenhuma outra teoria. São representações e não verdades, assim como é o mundo que Schopenhauer descreveu. Sábio o psicólogo que vê em ambas, possibilidades de exercer o seu trabalho, ou ao menos, que não faça o papel de advogado do diabo.

A ilustração abaixo é apenas um modo de mostrar um pouco das diferenças entre esses dois pensadores que admiro muito.


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Críticas, críticas e aparições ridículas do Santoro

Written by adv on 11 de abril de 2007 – 16:29 -

O doc disse que eu pego no pé do Santoro. Eu não pego no pé do Santoro, eu apenas digo o que ele reafirma a cada produção: ator ruim. Ele cumpre a função social da multi-etnicidade da indústria cinematográfica, nada mais. As Panteras 2 (o 1 também) é um filme lixo, péssimo, infantil, então não vale pegar a parte pelo todo, mas o todo como um lixo. Jaspion foi melhor que aquilo. O sorriso da Cameron Díaz me dá medo, é estranho, artificial demais, parece o Bocão da gelatina, ahh não curto ela. Não rola colocar Barbie para dar porrada, porrada é com a Michele Rodriguez, ela me realiza em todos os sentidos, é o sonho de qualquer sádico, nela o amor e a porrada realizam-se ao mesmo tempo, ou como diria Freud, é a realização plena de Eros e Ananké.

Na terceira temporada do Lost ainda não o vi, estou aguardando terminar toda temporada para começar assistir, mas o Lost não conta. Para mim a série Lost entrou em falência quando começou a distorcer os fundamentos de Skinner (ta bom, justifico no rodapé*). Era legal até o ponto que não tentaram ser nobres, faliram quando tentaram fundamentar a ficção na filosofia e na ciência. Isso é trabalho para Spielberg, do contrário corre o risco de ser filme culto, culto a ignorância.

Em 300, um filme que achei bom mas poderia ter sido ótimo se não tivessem inventados personagens aberrantes e demoníacos que nunca existiram na época, cavaleiros com máscaras douradas muito bem desenhadas para tempos que no máximo usava-se uma lata na cabeça - as “latas” eram até legais na Idade Clássica, mas não eram uma obra de arte em metal - e claro, se tivessem colocado um ator de verdade no papel do rei inimigo.

Tudo bem, o Santoro serviu de “quebra-galho”. Fez o papel de um rei com quase 3 metros de altura e uma voz completamente artificial, diante dos baixos e fortes espartanos com vozes estridentes perto do todo poderoso “Xerxes”, rei da Pérsia a qual interpretava. Mas foi ótimo, o Santoro figurava e a platéia contracenava com risos e vaias. E agora vou repensar em criticar o Santoro, ele interpretando o rei Xerxes foi excelente enquanto Vera-Verão.

* 1) Condicionamento operante não é uma técnica experimental, comportamento operante ocorre o tempo inteiro mesmo que estejamos sem controle de um experimentador. 2) A caixa de Skinner não é uma experiência, mas sim um instrumento para realizar várias experiências, é um instrumento usado em laboratório para produzir condicionamento operante, mas nem todo operante acontece somente em uma caixa de Skinner. 3) E o erro mais bárbaro, onde parece fundamentar a série, é o fato de que Skinner jamais tentou criar uma sociedade igualitária através da padronização de comportamentos, Skinner queria uma cultura melhor mas ressaltava a individualidade e e a importância do reforço diferencial para cada pessoa. Nada é mais equivocado do que achar que Skinner para a construção de uma cultura mais justa, aludia a tratamentos iguais para as pessoas. Skinner frisava a importância das pessoas serem auto-sustentáveis para progredirem em uma sociedade mais justa, não necessariamente igualitária.


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