Salve os animais, e se der tempo, os humanos

Written by adv on 28 de março de 2007 – 19:57 -

Hoje foi um dia atípico na Unesp. Um dia daqueles que toda a desgraça postulada por Freud em sua obra “O mal-estar na civilização” - absolutamente inconstetável em perfeição - recaia sobre mim. Uma das angústias que me abala profundamente é parar para pensar o quanto a espécie humana é mesquinha quando a realidade nos mostra tantos maus tratos com animais e com a natureza. Que o mundo é uma arena onde se luta por sobrevivência eu aprendi desde criança, jogar o jogo social eu o faço na medida do possível e coleciono mais ganhos do que perdas, mas quando se trata de sentimentos, bom, esse é um lado que tento eliminá-lo da minha vida há muitos anos, claro, uma luta em vão.

Tenho muitos traumas de infância vendo alguns parentes que matavam aves, porcos, carneiros e vacas. Imagens tristes e doloridas que ficam no reino do inconsciente, mas que jamais poderão ser apagadas. Não irei entrar em detalhes pois já disse que sou um homem de emocional doentio. Um último episódio que vi em vídeo, já em idade adulta, me abalou profundamente, tristes lembranças em duplo sentido, fato que embora eu possa relembrar os sons, as imagens e o sentimento de dor que me ocasiou naquele momento, não o faço.

Não tenho palavras para expressar o quanto o ser humano tem sido sanguinário com os animais. Há humanos morrendo em leitos e moribundos na solidão padecendo em lágrimas, mas há animais agonizando sem uma única culpa. Não que eu deseje o mal aos rostos humanos que pedem a cura, mas eu prefiro a cura dos animais em primeiro lugar. Os humanos por mais bons que sejam, são todos devedores de sentimentos de bondade. Somos egoístas demais em querermos ampliar o máximo a vida nesse planeta doente, já os animais, não são acometidos de nenhum defeito. Absolutamente nenhum.

Mas deixando esse breviário de lado… indo ao banheiro da faculdade, ouvi latidos de dor, inicialmente me passou pela cabeça que algum filho da puta havia prendido o bichano dentro do banheiro. Entrei com o coração disparado com medo de que crueldade encontraria ali. Havia um cachorro, um dos que conheço desde que iniciei meu curso - anos atrás - deitado no cantinho, acuado, latindo e gemendo. Cheguei perto e vi que os testículos do bichano estava completo de sangue, mas não deu para perceber o que foi pois ele imediatamente virou do lado oposto. A única expressão era a da dor. Desesperado, sem saber o que fazer para ajudá-lo, fiz alguns carinhos no bicho, o que não adiantou muito pois ele continuava gritando. Resumindo, arrumei uma vasilha para dar água para o cão, que sedento saciou-se depois de muitas idas e vindas enchendo a vasilha na torneira. Comprei um cachorro-quente que o bichano recusou com exceção da salsicha. Um cara que passava perto perguntou o que houve, expliquei e ele foi atrás de uma amiga. - O que faremos? Quem chamamos? Alguém sabe de um veterinário 24h? - Combinamos de procurar ajuda. Eu chamei uma amiga e eles foram atrás de alguém do curso de Biologia. Eu e minha amiga ligamos ao veterinário que disse que cobraria R$60,00 para ir até o local ver o que houve mas que não poderia fazer nada, para isso teríamos que levar o bicho até sua clínica, ou seja, pau no cu desse sujeito.

Foi ai que conheci a sra. Fátima, responsável por uma ONG protetora dos animais, nesse meio tempo o cachorro havia saido do banheiro e estava deitado na grama, fato que ninguém soube dizer como pois ele estava se arrastando e não conseguir andar. Duas outras alunas da Biologia que passaram e se sensibilizaram, se prontificaram a ajudar, resultado: as meninas mobilizaram outras pessoas, juntamos moedas, dinheiro e até cheques, o que nos totalizou mais de R$100,00 para ajudar o pobre cão que fora levado até um dos veterinários considerados mais bem estruturado da cidade, inclusive o único aberto 24h.

A sra. Fátima se prontificou a dar todo o suporte necessário depois do curamento, o pessoal também. Deixar ele de repouso em algum local e procurar adoção, o que segundo a sra. Fátima, já foi feito, mas ele acabou voltando para Unesp, mas o importante era ajudar toda aquela agonia apresentada pelo cão e devolvê-lo a sua casa: Unesp :D
Perguntei sobre como ajudar e divulgar a ONG, a sra. Fátima disse que tem sofrido resistências dentro da própria Unesp sobre o trabalho desenvolvido, que fora criticada por alunos e funcionários, disse a ela que mesmo assim era necessário a divulgação. A resistência e crueldade humana está por toda parte, mas há sim, pessoas que ainda não perderam a sensibilidade.

O importante é que o pobre cachorrinho receberá tratamento de qualidade e terá uma rede de suporte que devolverá seu bem estar. Divulgaremos esse trabalho no mural da Unesp até mesmo como compromisso as pessoas que se dispuseram a ajudar. Embora seja algo considerado uma atividade de idiotas, se Deus existisse, ele não faria crueldade aos animais ante os meus olhos, eu o mataria ou daria a vida tentando. Óbvio que é grande a impotência dos poucos que de alguma forma tentam ajudar frente a grandeza do mundo cruel, mas sou movido por forças altamente emotivas e primitivas que colocam o corpo prontamente em defesa dos animais quando o vê sob crueldades.

Todo o mal que por ora me atormentava sumiu, me senti leve como não o sentia há alguns anos, por instantes, a qual eu o desfruto ainda, sinto como a vida é maravilhosa e fácil quando não se é esmagado por uma neurose obssessiva que nas suas diversas formas de se manifestar, fazem conexões e mais conexões de pensamentos maléficos, e se sucedem numa cadeia prisional sufocante, mas perdem motriz quando o “coração” se encarrega do primeiro plano.

Assim que estiver com todos os dados da ONG colocarei aqui para os “muitos” humanos - termo este usado com todo respeito - que eu não sei como, acessam o logdemsn, e espero, que não sejam lixo humano, capazes de acometerem toda a delicadeza e beleza dos animais.


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Vida fábula, vida tragédia - parte II

Written by adv on 26 de março de 2007 – 6:49 -

Parte II

 

O tempo passou, o Puff e sua turma me abandonaram - até Freud aparecer na minha vida -. Um cara famoso, chamado Jesus Cristo, me apresentou um novo lar com novos amigos. Não sei bem descrever esse lugar porque ele nunca me mostrou. Vivia dizendo, “siga o que digo, obedeça meu pai e terás lugar no paraíso, do contrário, conhecerás o inferno”. Sujeito estúpido, não me dava escolhas nem respondia as perguntas que eu lhe fazia. Me diziam que se eu tivesse fé ele responderia. Como é que é a fé? - eu perguntava - diziam que era… na verdade nunca souberam dizer. O pai desse sujeito ai era “o cara”, diziam que ele criou tudo, inclusive eu, fato que me deixou confuso, sou filho da mãe ou de deus? – e tinha também a puta - Toda mulecaquinha ali da rua depois de dizer “gugu” e “dadá” conhecia o “filho da puta”. Essa era mãe de muitos, ninguém sabia quantos, mas sabíamos que tinha em toda parte do planeta.

Alguns dias na semana as pessoas se reuniam num lugar que chamavam de “casa temporária de Deus”, temporária porque depois iríamos morar no céu, a casa definitiva. Nesse lugar, um sujeito (pregador) ficava lá na frente discursando, diziam que Jesus Cristo ditava as palavras somente no ouvido dele que só tinha o trabalho de repetir aos outros filhos… da mãe, de Deus ou da puta. O pregador usava microfone e mesmo assim gritava, chegava a incomodar os ouvidos, já Jesus, bom, boicotaram o microfone dele, porque eu nunca soube como era a sua voz.

 

As vezes o pregador se emocionava, os fiéis também, e começavam a gritar “glória a deus” e “aleluia”. Outros me davam medo, choravam e gritavam umas coisas estranhas. Me diziam que as tais coisas estranhas era a linguagem dos anjos, ou seja, um anjo incorporava o sujeito e falava com a boca dele - eu nunca vi ninguém de cabelo encaracolado, auréola flutuante e asinhas batendo -. Mais tarde eu viria a falar a linguagem dos anjos, não faço idéia do que gritei, mas acho que um anjo usou algo meu para apitar, descobri que a linguagem dos anjos se chamava orgasmo.

A primeira parte da vida escrita fora uma fábula. Com muitas idas a diretoria da escola porque eu sempre me recusava a escrever os ditados, de muitas brigas no recreio porque o Corinthians tinha perdido no dia anterior, ou simplesmente por rixas entre grupos. Dia desses apanhei de uma gorducha que tinha três vezes o meu tamanho e o cubo de dez da minha largura, só porque disse a uns caras que ela era uma “baleia assassina”. Me cagüetaram, a gorda me deu uma surra no recreio, não tive reação, somente vexame.

Foram muitos fins de anos na rua estourando caixas de correios pelos bairros, foram muitas pipas e dedos cortados por cerol. Vi vizinhos morrendo de câncer e ataques cardíacos, vi estranhos que amanheciam baleado na esquina do bar do “seu Vicente”, esquina fúnebre, de muitos baleados, até parecia que era o próprio “seu Vicente” que ficava de escopeta da janela e quinzenalmente presenteava um que passava ali pela madrugada, mas não era. O “seu Vicente” viria a morrer de ataque cardíaco dentro do bar, e as vítimas de tiros iriam continuar.

Vi a Garra jogando amigos meu no porta-malas, mandando neguinho enconstar na parede e até invadir o funeral do Testa, um sujeito que não teve muita sorte, fora de moto assaltar uma joalheria com o Tuta da rua de baixo, dono da Teneré usada no crime, acabou levando um tiro mortal do japonês dono da loja. O Tuta fugiu e nunca mais se ouviu falar dele, era procurado pelos parentes da vítima que queriam a cabeça dele.

Fora assim até dois anos depois de uma época que começou a nascer uns pêlos estranhos, ali perto do lugarzinho que fazia eu falar a linguagem dos anjos. Nessa época conheci um sujeito chamado Nietzsche, que o chamo carinhosamente de Nit. Nit me fez quebrar o porquinho e comprar as escondidas os seus escritos denominado “O Anticristo”.

 

[continua, um dia desses]


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Vida fábula, vida tragédia - parte I

Written by adv on 18 de março de 2007 – 16:29 -

Parte I

Quando criança, pela manhã, eu pulava o muro da casa da vizinha para assistir desenhos que passavam na televisão. - Não, eu não tinha tv em casa. Me lembro que via Smurfs, Pica-pau, Ursinhos carinhosos, Heman, Thundercats, Bob pai e Bob filho, Almôndega e Espaguete, Animaniacs, Capitão caverna, João grandão, tutututu-tubarão (sei lá como escreve), Caverna do dragão, A pequena sereia, Batman, Superman, Aquaman, A mulher maravilha, As aventuras de Guliver, Betty Boop… mas o meu preferido era o do Puff, só ia embora quando terminava o desenho do Puff.

O Puff era um ursinho de pelúcia que parecia ingênuo mas tinha uma certa clareza intelectual, se importava profundamente com os sentimentos e era adorável pela floresta por ser um grande amigo, guloso, nada parecia saciar seu apetite, fazia de tudo para conseguir um pote de mel. Vivia com vários amigos pela adorável floresta. Tinha o Tigrão (acho que ele se chamava Abel), um sujeito animado e cheio de vigor que vivia dando pulos; tinha um burrinho que não me lembro o nome mas vivia de baixo astral, não por pessimismo mas por humildade; tinha um coelho (ou seria ele o Abel?) inteligente que ajudava na convocação da floresta quando necessário resolver algum problema; um leitão de nome Leitão, meio nervoso mas de grande lealdade e generosidade, demonstrava medo e apreensão, gaguejava as vezes, não gostava de ser um animal pequenino, mas tinha um grande coração; tinha uma coruja que se tinha nome eu não sei, mas na falta, eu a chamo carinhosamente de Coruja, acho que era a mais inteligente da turma, misteriosa, aparecia de vez em quando, o suficiente para encantar. Não me lembro do restante, mas esses eram os personagens principais. O Puff e sua turma não era um desenho qualquer, eles tinham olhares, vozes, personalidades e modos de andar que me prendiam frente a tv, davam asas a minha imaginação, que voava até a floresta encantada dos bichos falantes.

Foi assim durante toda infância. Os pais do Puff eram ausentes ou não existiam, sua família eram os amigos, a minha também. O Puff nunca cresceu, eu também não, ou quem sabe alguns centímetros… Com excessão destas características, nossa diferenças eram muitas. O Puff nunca ficou mais velho, eu fiquei. Os amigos do Puff nunca mudaram, os meus mudaram, o Puff nunca perdeu amigos, eu perdi. A floresta encantada que o Puff morava era mansa e calma, a floresta de concreto e aço que eu vivia era selvagem e barulhenta. O Tigrão não dava pulos, dava tiros, o burrinho não tinha baixo astral por humildade, mas por falta de esperança, o Leitão, coitado, virou pururuca por ser leal e generoso, a Coruja, bem… esta é uma longa estória.

O pote de mel começava a virar fel… *”sem luxo, descalço, nadar num riacho / Sem fome, / Pegando as fruta no cacho, / Ae truta, é o que eu acho, / Quero também, / Mais em São Paulo, / Deus é uma nota de 100″.

[continua, um dia desses]

* trechos da música “Vida Loka”, Racionais MC’s.


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Em defesa do Monzão - parte 1

Written by adv on 15 de fevereiro de 2007 – 17:27 -

Algum tempo atrás uma inescrupulosa ultrapassou o semáforo vermelho e cacetou meu Monzão de estimação. Pessoas ultrapassam semáforos vermelhos em ruas pouco movimentadas ou em horários insólitos, e ainda com atenção, mas ultrapassar um semáforo vermelho no centro da cidade, em horário de pico e em velocidade considerável, é burrice total.

Com o boletim de ocorrência favorável é muito simples ser reparado dos danos, o réu fica condenado a pagar logo em oitiva de conciliação na maioria dos casos. No entanto esse foi um caso peculiar. A burra pagou, ou melhor, o burro, esposo da burra. No entanto, o reparo foi um lixo, “meia-boca”, “gambiarras”. Houve uma série de intercorrências e acabei perdendo o contato com o filho da puta que não sei porque diabos ficou com medo de comparecer pessoalmente depois que discutimos sobre os gastos que eu estava tendo com táxi, que eu iria querer receber passivamente ou por meio da Justiça, claro.

Por se tratar de uma causa que não ultrapassa 5 salários mínimos, acredito que não é viável solicitar os serviços de um advogado, ora, adoro aventuras. Passei algumas noites revirando o Códido Civil, degustando dicionários jurídicos, pesquisando jurisprudência e lendo petições que envolvem reparações de danos de veículos. Brinquei de Sherlock Holmes e juntei provas até demais (fotografias, laudos, notas…), em um texto que tentei dar um “toque de inocência” (bem longo, 9 páginas), embora não pareça porque contém formatação jurídica, termos em latim e jurídicos. Resultado: gostei da atividade, terminando meu curso de dramaturgia, ops, Psicologia, pensarei em realizar Direito, quero realizar maremotos em copo d´agua, isso é ótimo, descobri que é um excelente psicotrópico ao meu cérebro.

“(…) liguei e insisti com o Sr. xxxxxx, exaltado e impaciente respondeu: “EU NÃO VOU, NÃO VOU JÁ DISSE, PARA DE ME LIGAR QUE VOCÊ JÁ ME ENCHEU O SACO DEMAIS” (SIC). - Ao dizer isso, entendo que o Sr. xxxxxx e o funileiro responsável, só podiam estar de alguma forma, em conluio agindo contra meus direitos de ver restabelecido in totum o status quo ante de meu único e estimado bem, ou seja, meu veículo, que até aquele fatídico dia se encontrava em perfeitas condições de uso. (…)”

Excelência, entendeu bem? - É meu único e estimado bem, e não está no meu nome porque já tem gente querendo tomar ;-)
Acredito que não vai ser muito difícil ter um resultado positivo, pelas provas dispostas na peça, mas do contrário, estou disposto a recorrer em última instância, descer as escadarias do inferno e puxar o chifre do capeta. Além de reaver meus prejuízos, gostaria de ter licença para dar umas porradas legalizadas nesse filho da puta, que acabou com minhas férias e muitos dos meus neurônios.

Ainda volto com novos desarrolares sobre isso, é rapidinho, afinal a Justiça nesse país demora só alguns meses, ou alguns anos :-)


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Parabéns São Paulo

Written by adv on 25 de janeiro de 2007 – 10:39 -

Hoje São Paulo faz 453 anos, e como todo paulistano, aquilo é um inferno, mas seja lá onde for, passa se o tempo, mas o amor pelo “CENTRO” do Brasil continua o mesmo. Tudo bem que se perguntarem a um estrangeiro o que ele sabe sobre o Brasil, provavelmente ouviríamos: bunda, Rio, carnaval e futebol. - Meramente cartão postal, e como todo cartão postal, vende-se uma imagem paradisíaca.

Em São Paulo não se vende cartão postal, mostra-se a bandidagem, as enchentes, as perdas e as destruições, os seqüestros e o trânsito. O caos é a única visão paradisíaca, cara feia e correria. - Em qualquer lugar do Brasil, o paulista é sempre o último a ser bem-vindo. Arrogante, chato, cara fechada, apressado…

A cidade pode ser o caos, mas é o único lugar do Brasil onde se pode ter os melhores serviços, ter tudo no próprio bairro, ter excesso de escolhas para toda escolha, comer a melhor pizza, e o que mais sinto falta, naquele inferno nunca me sentia como “o estranho no ninho”, e mesmo quando sozinho, jamais soube o que é solidão.

“(…) Hey são paulo,
terra de arranha-céu,
a garoa rasga a carne,
é a torre de babel,
famíla brasileira,
dois contra o mundo,
mãe solteira,
de um promissor,
vagabundo,
luz, câmera e ação (…)”
Racionais - Negro Drama

Terminal Carrão; porque era o caminho de ida para os outros 3 cantos,
e o caminho de volta para minha casa.

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